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Mariella Lazaretti- ignorâncias universais


Perdi o apetite

Paul McCartney diz que comer boi e galinha colabora para o efeito estufa, mas será que ele recicla lixo e toma banho de 15 minutos?

Tenho um amigo que não come nada que tenha olhos. Sabemos, já há muito tempo, que quem come muito morre antes. E se muito desse muito for carne vermelha, a gente paga os pecados lentamente antes de morrer. Os macrobióticos e vegetarianos dizem também que o sofrimento do boi ou do porco ao serem sacrificados envenena nosso sangue. Só estes argumentos foram suficientes para eu diminuir a carne do meu cardápio.

Mas o Paul McCartney quer mais de mim e de você. Ele quer levar também os ovos, os queijos, os sushis e sashimis, o bacalhau e o frango à caçadora. Quer que abdiquemos de todos os bichinhos e seus derivados.  Em nome de sua crença – que é admirável, porque bondosa – o Beatle pegou pesado: jogou na web um vídeo aterrador de torturas contra animais (http://beatlestweets.posterous.com/paul-mccartney-narrates-new-peta-video).

Se você não quiser cair de joelhos fazendo o sinal da cruz toda vez que topar com um hambúrguer, não assista. Desde que vi, dias atrás, não comi nada mais substancioso do que pizza de abobrinha ( e antes cheguei o ouvido perto para ver se aquele gemido era dela ou de meu estômago). Passei realmente mal com as cenas de crueldade com bois e vacas, porcos e galinhas. Homens sádicos socam porquinhos e espancam galinhas. Galinhas! Ah, e peixes. Paul garante que peixes têm personalidade, e que comer uma tilápia é como comer um cocker spaniel.

Se eu escrever alguma coisa que não bata efetivamente com o vídeo, me perdoe, mas não consegui ver direito uma segunda vez – em algumas cenas, eu tampava os ouvidos e os olhos de pavor.  É muito duro assistir alguém maltratando animais.  Mas com medo de que não fosse convincente o bastante para os carnívoros, Paul ainda fez um último apelo para abdicarmos de carne: salvar o planeta. Na semana do Cop 15 foi super oportuno, tenho de admitir. O gás metano, 20 vezes mais potente do que o dióxido de carbono no efeito estufa, é produzido em grande escala pela flatulência de bovinos e ovinos.

No entanto, me pergunto como a China veria a ideia de ter menos carne no mundo justo agora que chegou a vez dela comer. Sua população passou os últimos 50 anos sem direito à carne  – não me refiro a gafanhotos e escorpiões. Em uma viagem que fiz à China, o guia turístico levou-nos às lágrimas com a história de seu sétimo aniversário, quando pediu de presente à mãe, com as mãozinhas em súplica, uma refeição com carne de boi (e a mãe trocou toda sua riqueza - os cupons de sabão, um pente sem dentes e duas meias de lã quase inteiras para ver o filho engolir carne sorrindo). 

O mundo ainda passa fome. A proposta para salvar o planeta eliminando toda a proteína animal é mais ou menos dar brioches para africanos famélicos. Se acentuarmos a produção de soja, vamos cair na discussão dos transgênicos.

Matança de animais para fins de alimentação sem critérios “humanistas” tem de acabar. E diminuir o consumo de carne só fará bem a todos em idade adulta. No entanto, me pergunto se Paul já abdicou de seus banhos de banheira, se recicla lixo, se trocou de geladeira e se desliga a mesa de som quando está papeando com Ringo ao telefone.

 A verdade: poucos incorporaram novas atitudes para o bem do planeta. Principalmente os ricos e famosos.  Falo das atitudes mais simples, que talvez por isto soem menos nobres. Nem a indústria cinematográfica e as novelas da Globo entenderam e se apropriaram da questão.

 Nada deixa meu transtorno obsessivo compulsivo mais histérico do que filmes em que o mocinho parte para uma luta de tchaco de meia hora enquanto a geladeira permanece aberta e a torneira da pia jorrando litros. Fecha a torneira, homem! Pelo bem do planeta!

Por outro lado, nunca personagens comuns fumaram tanto na telona quanto agora com a publicidade do tabaco limitada. É possível que em uma refilmagem de Bambi, o veadinho fume e incendeie a floresta sem nenhum problema de consciência. Então. Se a indústria de cinema tivesse esse mesmo empenho para propagar lições de sustentabilidade, a banheira da cena final de Atração Fatal jamais transbordaria e o coelhinho seria poupado da fervura.

Paul McCartney disse – e com um Beatle ninguém discute: maltratar animais é crime hediondo. Mas eu digo: não reciclar lixo e gastar água e luz sem responsabilidade são de uma preguiça pra lá de insustentável.



Escrito por Mariella Lazaretti às 12h53
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Quando as TVs usavam bombril

Você também anda tonto com todas as coisas simples da vida que se tornaram teses tecnológicas? Bem vindo ao desamparo...

 

A copa do mundo 2010 promete fortes emoções. Será a primeira em 3 D, como o filme Avatar.  As Tvs com esta possibilidade já estão sendo anunciadas. Posso ver a cena da família Silva toda ela de camiseta amarela usando os óculos gigantes e sentindo a bola quicar no tapete sob seus pés. Os mais ricos terão óculos para a família e os convidados, já os menos afortunados se contentarão com o par que virá junto com as 24 prestações sem juros.

Minha geração começou a vida assistindo TV em preto e branco. E, acredite, era muito legal.  Assisti a primeira copa de minha vida, a melhor de todas e a de que me lembro completamente, em 1970, em uma Phillips  capaz de transmitir as nuances inimagináveis que iam do preto ao branco, passando pelos mais insuspeitos tons de cinza. Todo mundo era lindo e misterioso, com pinta de ator dos filmes de Godard.

Parece mentira que tantas mudanças tenham acontecido em uma vida que ainda nem chegou à metade de sua existência (estou sendo otimista comigo mesma, claro). Tive radio vitrola, máquina de escrever e telefone preto de baquelite - e não tenho 100 anos.

Lembro-me do dia em que o pai de uma amiga comprou a primeira TV colorida do bairro. A notícia correu como Forrest Gump na escola e, naquela semana, ela passou o recreio respondendo perguntas que não queriam calar: de que cor é o Visconde de Sabugosa? e a nave do Perdidos no Espaço? e o indiozinho da Tupi?

Até aquele glorioso momento multicolor, todas as casas ricas ou pobres, intelectuais ou rasas, tinham um objeto imprescindível junto à televisão – um chumaço de bombril. Ele era enfiado na antena interna do aparelho para garantir menos chuviscos, bem como inconvenientes travessões verticais e horizontais que corriam na tela; piscadas teimosas que tiravam a gente do sério.

O expediente não adiantava muito, mas urgia tomar uma atitude qualquer que fosse para manter a serenidade da família durante a transmissão da Família Trapo ao vivo. Socos na carcaça do televisor eram usuais também, não obstante ocorressem em um estágio mais avançado de revolta, quando ficar estático em uma perna só atrás do abajur para não “dar interferência” tinha se mostrado inútil.

O último estágio era mexer nas antenas externas, trabalho que devia ser feito em dupla. Um subia no telhado e manuseando os ferros gritava para o de dentro: “E agora, melhorou?”. O da sala se postava diante da tela e se punha a gritos de gago: “Sim-sim-sim. Nãããão. Volta, volta, volta. Aí-aí-aí. Não se mexe mais, não se mexe!”.

Tive um tio que ficou no telhado com os dois dedões encostados na haste principal da antena durante todo um episódio de Almoço com as Estrelas. Toda vez que ele ameaçava sair da posição, a tela se enchia de chuviscos e a galera da sala gritava: “Nãããão. Volta, volta. Segura na antena de novo”.

Éramos tão humanos! E tão agradecidos por termos aquelas maravilhas em nossas vidas. Elas chegavam e pronto, estavam lá, era só ligar, assistir ou ouvir. Agora ninguém dá conta de entender o que uma tecnologia faz para logo defenestrá-la em benefício de outra. Cadê a diversão?

Neste Natal fizemos uma videoconferência em família diante da televisão de 40 polegadas a partir de uma conexão com um laptop. Colocamos a câmera com microfones no alto do aparelho e acessamos o Skype para falar com uma irmã que vive nos Estados Unidos. Dá pra crer? Ela via a todos nós sentados no sofá e todos nós a assistíamos pela tela gigante. Os novos aparelhos de TV também terão a capacidade de teleconferência nos próximos modelos. Câmera, microfones embutidos e dois cliques no controle remoto.

No dia 27 de janeiro dizem que a Apple vai lançar o I Pad, outra bomba tecnológica para nos confrontar mais uma vez com a capacidade humana de mudar radicalmente a maneira de ver as horas. O tablet viria suplantar o Kindle, que oferece uma biblioteca inteira em um retângulo de 15 centímetros. Mal o conheci e já se trata de um natimorto. O I Pad possibilitará que todas as revistas sejam lidas sem o uso de papel, assim como livros e jornais.  Agora me diga: há algo mais simples e confortante do que ter um livro na bolsa que, com um simples gesto, o abrimos e fechamos? Sem baterias, sem cursores, sem chance de perdermos 800 dólares tomando uma chuvinha até o metrô. Mas, principalmente, sem exigir de nós decisões e escolhas constantes. Algo assim de uma simplicidade revolucionária! Vontade de passar a tarde sentada em frente à televisão comendo brigadeiro de colher.



Escrito por Mariella Lazaretti às 13h28
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Vai uma rabada com foie?

 

Assim como aconteceu com o tomate seco, o foie gras é a figurinha da vez nos cardápios da cidade. Salve seu prazer à mesa, seu sistema digestivo e os gansos – diga não à massificação.

 

 

Eu deveria começar este artigo defendendo os gansos e patos do mundo que heroicamente nos fornecem a iguaria foie gras (em francês, fígado de ganso) a custa de uma superalimentação torturante. E pretendo fazê-lo. Mas antes vou proteger você, leitor, de comer foie gras além dos padrões recomendados e perder para sempre momentos de glória em sua curta jornada existencial de duas refeições ao dia passíveis desta possibilidade.

   Se você, como eu, é um gourmet relutante que sofre entre o politicamente correto, o medo de engordar e a tentação dos variados prazeres mundanos, saiba que apoio toda tentativa e investimento tecnológico que limitem o sofrimento destas aves guerreiras.

Mas daí a nunca mais comer uma picanha é uma tomada de decisão para além da minha expectativa de vida. Sou onívora, ponto final. Isto posto, pergunto: quem agüenta tanto foie gras espalhado pelos cardápios desta cidade? Deste país! Nunca seus fígados foram tão consumidos e de maneira tão inconsequente.

    

Há dez anos você só teria a chance de provar um foie gras distinto em restaurantes de nível estelar da França. Agora consegue comer aqui. Ótimo. Em qualquer esquina. Péssimo. É sushi com foie, carne seca com foie, rabada com foie. Valha-me!  O problema é que provando o prato mal feito, o comensal toma fastio para o resto da vida. Ele é forte e gorduroso o suficiente para deixar marcas inesquecíveis no sistema digestivo. E isto não é justo com você, tampouco com um prato que na França é considerado patrimônio histórico e gastronômico protegido por lei. Já os gansos agradecem, sem dúvida.

    O mais sábio é fugir das tentações meia boca. Ser seletivo.

 

Em um destes festivais gastronômicos com foie gras do primeiro ao último prato, um amigo meu comeu um bifão de fígado aterrorizante. Seu interior expunha entranhas esponjosas semi cruas acima do nível aceitável, sem a consistência e o cozimento apropriados. Nunca mais comeu foie na vida. Quando falam no nome, ele arrepia.

Já eu, em recente visita a um templo de gastronomia francesa, recebi um pequeno bocado. Relutei, segurando-me na toalha de mesa o quanto pude antes de compactuar mais uma vez com a farra dos gansos. Mas, como a carne é fraca, meti-o na boca. Atingi estado de graça ao comprimir a pequenina porção amanteigada no céu da boca, sentindo o sabor aveludado envolvendo toda a língua, arredondado por um gole de tokaj (vinho húngaro feito na região de Tokaj).

 

 O prato bem feito é bom, fazer o quê. Só que o danado do foie se tornou figurinha tão vulgar quanto o tomate seco foi uma década atrás - com a diferença de que tomates não provocam remorso.

 

Chefs se apropriaram do foie para conferir um tom falsamente aristocrático a suas criações. Mas muitos já perceberam que o foie às baciadas é artifício de preguiçoso e pode jogar gente talentosa na vala comum dos maria-vai-com-as-outras deslumbrados.

 

  De qualquer modo, o primeiro mandamento para uma experiência aprazível com a iguaria é comer uma porção que caiba em uma colher. Não repeti-la com freqüência – até porque a gordura do foie funciona bem na França graças ao paradoxo que exige garrafas de vinho tinto como solvente em todas as refeições desde o útero materno e ir a pé para o trabalho.  

    Eu sei, eu sei: fotos rodam o mundo via internet mostrando cenas nada agradáveis destes animais criados em confinamento. Mais um motivo para a moderação. O que me conforta é que uma indústria que só na França representa 30 mil empregos e um saldo positivo de 7,5 milhões de euros na balança de exportação está sofrendo forte pressão para mudança de atitude.

 

Em outubro de 2007, a fábrica espanhola Pateria de Souza, ganhou o prêmio Coup du Coeur de Inovação, no Salão Internacional de Alimentos de Paris, por produzir patê de foie derivado de gansos que ciscam livremente vegetais, figos e sementes naturais nos campos da Extremadura. Há ongs no mundo todo empenhadas em salvar os bichinhos de sessões da engorda forçada que remontam o Egito antigo, para que seus fígados atinjam no mínimo 400 gramas (para gansos) e 300 gramas (para patos), em seus 12 a 21 derradeiros dias de vida.  Nos Estados Unidos, a briga é tamanha que na Califórnia uma lei proibirá sua venda a partir de 2012.  Creio que nem vai precisar de tanto. A oferta desclassificada e acachapante de foie se incumbirá de salvar gansos e patos. Quando demais, até água enjoa.

 

Publicado na coluna semanal do jornal Brasil Econômico ( aos sábados)

 



Escrito por Mariella Lazaretti às 13h26
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O vizinho e o videokê

De repente, meu vizinho deixou de falar conosco. Faz um tempo que me pergunto o que eu teria feito para deixar de merecer o simples bom dia que antes recebia. Logo que mudamos para esta casa fiz questão de convidá-lo, junto com os vizinhos do outro lado e da frente, para nossa festa de posse. Não conhecíamos nenhum deles, mas sustento a tese segundo a qual um vizinho só reclama do barulho e chama a polícia quando não é convidado para a festa. Sempre funciona e, de modo geral, perpetua um relacionamento gentil.

De fato, este vizinho, em retribuição, nos chamou para tomar um drink. Jorge, o vizinho, nos recebeu sorridente amarrou o avental de ocasiões especiais, deu a volta no bar da piscina e anunciou que nos brindaria com sua especialidade: Sex on The Beach.

 A mistura de licor de pêssego, suco de laranja e vodca que Jorge fez com técnica científica para mim e  Joca, nos soltou as mandíbulas. Eu pelo menos, tanto ri que engasgando de simpatia e com vontade de lisonjear o autor, pedi mais um. Era bom mesmo o danado do drink. Lá foi ele pra trás do balcão de novo, espremer laranja na hora, como mandava a liturgia de seu Sex on The Beach perfeito. Achei-o menos efusivo desta vez, mas julguei ser o semblante do fervor perfeccionista.

Daí em diante talvez eu tenha falado um pouco alto ou sibilado em algumas frases. Nada grave. Talvez um  zuzo bem, zuzo bem tenha escapado, vá lá (melhor que zuzo mal, zuzo mal...). E embora meu marido Joca tenha me conduzido pelo braço até a porta da rua, tenho certeza de que o tropeção no capacho que resultou na quebra do vaso de gerânios não foi notado. De resto, não fiz nada que justificasse ao Jorge e a Daniela nos obliterar de seus cumprimentos matinais.

 Joca tem outra tese. Afirma que a gota d’água foi a Tetê.  Tetê Spíndola. Tudo começou com um presente que ganhei: um videokê, aquele brinquedo do século passado para cantores frustrados. Quem me conhece diz que me tornei meio obsessiva. Ok, eu tentava diversos tons, mudava o ritmo das músicas e cantava a mesma canção em variações infinitas. Cantei “Como nossos Pais”, consagrada por Elis Regina, umas 200 vezes. Na mesma tarde.  Parei quando desconfiei que a piada de chamarem um exorcista não era piada.

Tenho uma tese de que todas as pessoas no mundo se sentem artistas e sonham ser ouvidas em som estereofônico. Não me pergunte por que. Faça o teste do microfone. Leve um videokê ou um Wii ( para ser mais atual) a uma festa de família. As pessoas enlouquecem, se acotovelam e são capazes de vilanias para ter acesso ao instrumento que imporá suas vozes ao resto do mundo. Quem tem o microfone, tem a força. Tenho pesadelos ao recordar o olhar rútilo e a gana da minha doce tia avó ( hoje in memorian),  que na ânsia de agarrar o microfone antes que alguém mais lépido o fizesse, largou a bengala, chutou o gato que cochilava no caminho, e atracou-se ao instrumento aos gritos de “Minha vez de cantar Ronda! Minha vez!”. Foi seu momento de glória antes da sua fulminante morte na semana seguinte.

Quando ganhei o brinquedo fiquei embriagada deste delírio. Com os recursos equalizadores do videokê eu me sentia uma Yma Sumac*.  Me comportava como se tivesse um camarim me aguardando com 55 toalhas brancas, 213 Águas Perrier e 7 caixas de Sonho de Valsa ( nunca entendi pra que tanta toalha branca, mas dos Sonhos de Valsa eu tinha decidido que não abriria mão);  cantava Borbulhas de Amor em dupla com Joca, castigava um Tapas e Beijos com minha filha, e chegava a anunciar ao microfone meus shows imaginários pelo interior paulista : Alô Tupã, Americana, Sorocaba, Jacareí, Pindamonhangaba, estaremos aí de 12 de agosto a 25 de novembro...

Foi difícil encontrar o tom certo, mas depois de tantas pesquisas descobri, enfim, que o D+ Fem ( na misteriosa nomenclatura do videokê ) era o ideal para mim. No entanto, eu ainda buscava minha obra-prima. A música que me garantiria aplausos e comentários quando ocasionalmente alguém, conhecedor de meu talento, me anunciasse na festa do Peão do Boiadeiro - onde jamais estive, mas nunca se sabe.

Até que encontrei a pérola. Deparei com a música que casava com meu tom perfeitamente, a obra que me tornaria imortal em minha constelação familiar. “Escrito nas Estrelas”, que garantiu o primeiro lugar a Tetê Spindola no Festival dos Festivais, em 1985. Enquanto eu não me transmutei para a voz, inflexões e interpretação idênticas às de Tetê Spíndola não sosseguei. No dia em que cheguei aos píncaros agudos de Tetê, lembro-me que minha empregada surgiu com um papel nas mãos. Aguardou até meus últimos i-i-i-i, ahahahah uh-hu-huuhu, e disse: Estão aí para instalar o revestimento acústico e as janelas antiruídos.  Olhei a nota fiscal e disse: que nada, é do vizinho aí. Do Jorge.

E prossegui embevecida com minha interpretação absoluta e gloriosa, obtendo naquele mesmo dia a nota 100 do videokê. Quando desliguei o microfone às duas da manhã, pensei: nem Yma Sumac seria capaz de agudos tão perfeitos.

 Jorge e a Daniela podem nem saber quem é Yma Sumac, e por isso não me cumprimentam mais. Ignaros. Com janelas antiruídos nem vão perceber minha nova fase de sucessos quando meu Wii dos Beatles chegar. E aí, eu vou ter uma guitarra!  

 

Esta crônica foi publicada no jornal Brasil Econômico no dia 11 de outubro de 2009

 

* Cantora peruana dos anos50 famosa por sua capacidade vocal agudíssima que ia além de três oitavas. 

 



Escrito por Mariella Lazaretti às 21h35
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Tenho de voltar e me exercitar nos textos. Acabo de escrever um livro sobre o Jantar do Século, que foi... um jantar do século! 

Calma, gente, não vou contar tudo hoje. Antes tenho de escrever minha primeira coluna para o novo jornal Brasil Econômico. Não se preocupem, que não bandeei pro lado dos economistas, só cuido da parte da happy hour, quando o papo rola e as bobagens saltam da boca sem piedade. É dessa parte que eu gosto! 

beijos a todos e até logo.



Escrito por Mariella Lazaretti às 21h26
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Eu não seria eu se...



...Fosse abstêmia, mas fumasse.


...Recusasse uma taça de dry Martini.


... e a segunda taça de dry Martini.


...Comprasse roupas de grife


...Soubesse qualquer coisa em francês além de cherché e avec.


...Me arrependesse de comer batatas fritas e chocolate.


...Viajasse de executiva como pessoa física.


...Surfasse no novo Windows Vista. Ou no velho..


...Usasse calcinhas fio dental


...Fosse consumidora de desodorante


...Topasse fazer mergulho


...Comesse pele de frango e nhoque


...Desprezasse Sidney Magal e Wando


...Adorasse ir a ópera para ouvir gordos gritarem comigo


...Não admitisse enorme prazer em brigar com o Unibanco.


...Considerasse o George Harrison o menos importante dos 4.


...Evitasse farmácias de modo geral, e as Raias e Drogões em particular.


...Participasse de clubes. Religiosos, políticos, até os com piscina e vestiário.


...Ficasse parada 15 minutos sem pensar que tenho de fazer algo imediatamente


...Não dormisse de meias


...Tivesse lido Proust inteiro


...Detestasse Free shops.


...Pudesse doar sangue.


...Ficasse parada quando toca “It’s Raining Man”


...Te convidasse pra assistir O Exorcista .


...Tivesse mãos, pés e nariz de princesa.


...Não falasse putz grila e bacana.




...Não tivesse preguiça de escrever de vez em quando.
... E enchesse uma página com coisas estúpidas sobre mim mesma, usando uma oração negativa metida a besta como início de papo.


Mas a vida é assim, né? A gente é sempre de um jeito, até precisar ser de outro.



Escrito por Mariella Lazaretti às 20h55
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 Huuugoo!

 

 

 

O ultraje do Poços de Caldas

 

 

Sozinha não dou conta. Preciso que todos se unam em uma intelectual guerrilha contra esta atitude vil e traiçoeira da cultura moderna. Contra esta atitude mesquinha e impessoal. Sim, este negócio absurdo de arruinar as pequenas coisas boas que aprendemos a amar desde que nascemos.

Vai lá: requeijão Poços de Caldas.

 

Me diz: o que aqueles caras merecem ao transmutar o ícone inesquecível da nossa infância na gosma pegajosa  com gosto de isopor derretido que temos de encarar hoje? E ainda embalada em um copo de plástico, em plena campanha global contra lixo no planeta! Eles, sempre eles.

 

Eles que sentam em volta de uma mesa oval com planilhas na mão e dizem ao velhinho que faz a mesma receita de iogurte há 35 anos para colocar farinha na mistura, pra que os números engordem. E depois riem gargalhadas fantasmagóricas e enrolam uma mão na outra, vingativos contra nós, crianças atônitas diante da fatia de pão surrupiada das lancheiras cheirando a suco de uva.

São eles, os monstros do capitalismo selvagem. O que fazer para impedi-los?

 

Se eu fosse ditadora (o que não é raro de acontecer em meu pequeno círculo de atuação), mandava estes homens sem compaixão carpir cana, para ver quanto vale um pequeno prazer na vida de gente honesta como você e eu. Sabe um banho gostoso? Sabe um lençol estalando de limpo? Então. Deixa estes caras sem isso, suando debaixo de um chapéu de palha, e só com um lenço pra limpar o sangue do corte do facão, pra ver como eles voltam com mais respeito.

 

Dos copos de vidro do Poços de Caldas eu nem gostava tanto, mas faziam parte da família. Eram tantos em nossa casa que chegava a me sentir ameaçada por eles como se fossem Kikos Marinhos em procriação. Um dia, pensava, eles tomarão conta de tudo.  Mas o sabor do legítimo Poços de Caldas... Aquela cremosidade de queijo adocicado que tínhamos todas as manhãs, antes do velhinho da receita ser acorrentado num porão pela compradora Danone,... ai meu Deus, que saudades me dá.

 

A primeira vez que experimentei um requeijão Poços de Caldas foi aos 5 anos, na casa da Dona Egle. Na minha casa não se comia requeijão Poços de Caldas. Era caro, e minha mãe mantinha as contas da casa, com (então) cinco filhas, na ponta do lápis. ( A saber, ela teve a sexta filha e, aí com as vacas mais gordas, comíamos champinhom e requeijão). A primeira vez que senti aquele traço de queijo suave, se insinuando dos dois lados da língua como um abraço saboroso, fiquei assombrada com a textura e prazer inéditos que acabara de vivenciar. Algo que poderia ser comparado, em termos de graduação prazerosa, ao Leite Condensado Moça, este que, com a graça de Nossa Senhora dos Prazeres, permanece o mesmo.

 

Mas hoje, cadê? Acabou. Como disse um amigo gourmet, horrorizado com a proliferação de foie gras de quinta no mundo: “Eles transformam os produtos bons em um produto ao alcance de todos e, assim, todos têm acesso à merda democraticamente”.

 

Sonho de Valsa. Taí outro problema sério de ordem pública. O que fizeram com aquela oitava maravilha do mundo? Não venham me dizer que a nostalgia dá melhor sabor a tudo. Não, não. Desde que a Lacta foi vendida para a ... quem mesmo? O Sonho de Valsa vem caindo de qualidade. Lentamente, que é pra ver se a gente não percebe.

Aquela lua cheia, macia, que você pressionava entre a língua o céu da boca, com os olhinhos virados de felicidade, sentindo a leve fricção de cristais de amendoins na mucosa, virou uma pasta farinhenta, sem gosto.

 

Fala pra mim, é ou não ultrajante? Você, um ser aque nasce vulnerável e crente, crescer feliz com as gentilezas da vida, como luz elétrica e a televisão; e, de repente, se ver subtraído destes hábitos que te pareciam um mérito congênito...vai pensar o quê? Que alguém está tentando de tapear, ora.

E está.

Requeijão decente, sonho de valsa de verdade, namorar na Ilha Porchat, mingaus do Monte Líbano, tobogãs, leite e frango sem veneno, música nova, boa e atéia do Roberto Carlos, festival internacional da canção...

 

Levam tudo que a gente gosta embora e querem e fiquemos quietos.

 

É como viver numa ruazinha tranqüila desde que você nasceu, onde os vizinhos param os carros indiferentes à mão permitida, a molecada joga bola na rua; e, de repente, numa bela manhã, dar de cara com uma placa de Proibido Estacionar em frente ao portãozinho baixo da sua casa.

Peralá, minha gente. Tudo tem limite! 

 Por isso, os convoco.

As coisas boas da vida têm de voltar ao seu lugar de direito. Paremos de comprar, liguemos no 0800 e gritemos a plenos pulmões: - TIREM O VELHINHO DO CALABOUÇO!



Escrito por Mariella Lazaretti às 16h54
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É pequeno burguês, mas tenho de falar da Dasdores

 

É sempre injusto considerar que aquela moça, a empregada doméstica de sua casa, não raciocina bem. Eu sei. Me sinto ultra mal de pensar assim e nem queria falar neste assunto, porque no fundo esta atitude é tão país de terceiro mundo! É tão colonizador sobre colonizado indígena! Pô, ter empregada já é coisa de burguês-feladaputa e eu ainda venho aqui chorar pitanga?

 

Mas digamos que não seremos nós, nos próximos dias corridos do mês, que deixaremos mais uma empregada sem salário para pagar o aluguel e a 36ª prestação do quarto completo das Casas Bahia. Vamos admitir - e que nenhum estudante de ciências sociais da USP nos ouça: não é fácil. Não é fácil decodificar os passos errantes dos neurônios destas valorosas guerreiras do pano úmido. Sem querer generalizar, longe de mim, mas a cena é familiar e é a seguinte:

 

 De manhã, atrasada pra reunião, você vai à cozinha e com determinação e objetos didáticos, ajeita tudo na pia pra que fique claro. Que não paire dúvida. Que não haja qualquer motivo para ela decidir por conta própria. Você fala, fala, fala. Retoma, explica de novo.

 

O relógio corre, mas você sabe que é preciso insistir. Ela nem respira. Ela está ali, ao que tudo indica, de corpo e alma, a despeito do olhar paradão. Você pergunta: entendeu? Ela mexe a cabeça que sim. Tchau, lá vai você para a selva capitalista. Ela fica. Fica e divide o que você disse com o que ela acha que ouviu, noves fora nada, somado com o que a prima mandou pelo telefone – pronto: é o que vai rolar do jantar que você passou uma hora explicando.

 

 Então você, que pediu para ela cozinhar a alcachofra sem tempero algum e assar o filé mignon com todos as ervas que separou, chega em casa e encontra a alcachofra cheia de ervas esturricada no forno e o filé mignon esfarelando na panela de pressão sem tempero. Fala sério.

 

Atire a primeira pedra quem...Seus filhos intercedem, dizendo que ela não comeu proteína na infância, e te fazem sentir uma patricinha mesquinha.Enquanto você, burguesa de unhas feitas, só queria chegar em casa e encontrar a alcachofra cozida e o filé assado. É pedir demais?

 

Aí, é fim de semana. Você vai procurar o shorts de corrida que usou no sábado passado. Faz tempo que ele se foi nas mãos de Dasdores e isso te inquieta.

 

Percebe que errou na condução da lavagem desta peça. Não usou mapas estratégicos, bonecos de massinha e jogos de colorir. Fica tensa ao se aproximar do armário onde o shorts entra e sai há 10 anos sem problemas. Mentalmente visualiza o pobrezinho sozinho com a Dasdores na lavanderia. Sem condições de gritar por socorro. Totalmente à mercê do raciocínio tortuoso da Dasdores.

 

Pensa nas coisas que ele, aquele pequeno shorts que você adora, que não se encontra mais à venda desde os anos 90, que é curto, mas cobre bem a bunda, é justo, mas maleável para correr, pode ter sofrido. Ele não podia ser passado a ferro, não podia ir na máquina, não podia secar à sombra. Você imagina de onde a desgraça poderá te acertar.

 

É sábado de manhã e você já está trincando os dentes. Sua adrenalina cai no sangue quando você abre a gaveta e... não há aquela, nem qualquer outra peça em seu lugar habitual. Olha na gaveta de cima, de seu marido, e não há uma cueca disponível. Seu coração dispara, suas mãos crispam.

 

Esquece o shorts. Que se dane o shorts :– Cadê a porra daquele monte de roupa minha que devia estar aqui? Cadê minha camiseta branca? Onde ela pôs a calça de lycra que eu ia usar segunda? Se ela não me matar hoje, mato esta mulher, juro!

 

 Você sai abrindo portas e gavetas e rememorando o discurso que fez na semana passada - eu disse, Dasdores, se você não sabe onde ficam as roupas, deixe tudo ali em cima; naquele quarto, que a gente se incumbe de guardar.

 

Mas quê? Nada no lugar. Ela tomou a decisão de melhorar o cazzo da logística da casa. Você revira os armários e a área de serviço em busca das roupas lavadas durante a semana. Em vão. Senta num banquinho de canto e chora de “nervo”.

 

 Enfim, exausta e com início de angina, tenta pensar como ela pode ter pensado. Vai até o armário do último quarto. Apóia os pés nas gavetas para chegar ao ponto mais alto e inimaginável para alguém guardar roupas -  a terra de ninguém escura e solitária onde jaz a caixa da árvore de natal.

 

Sim, sim: lá estão montinhos de roupas dobradinhas. Passadinhas. Tudo, absolutamente tudo, o que ela conseguiu amealhar durante a semana. Lençóis, toalhas, toalha de mesa, que ela fez questão de colocar como você disse: “ali em cima, no quarto”. Não em cima da cama; não em cima da cômoda; lá em cima, no armário do esquecimento, onde as roupas podiam ser encontradas às vésperas do natal. E nós estamos em abril.

 

 Aí alguém me pergunta por que não mando a Dasdores embora? Pois é, eu me pergunto isto todos os dias. Mas, sabe, ela é boazinha, coitada. Honesta, tem filhos em idade escolar e um marido beberrão.  Também, ficar sem empregada e ensinar tudo de novo pra outra, é duro... Por mais politicamente incorreto que seja meu discurso, convenhamos - é duro!



Escrito por Mariella Lazaretti às 16h28
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Os sim e os nãos dos 40 anos



Aí chegaram os 40 anos. Hoje, 40 e alguns anos. Achei que estaríamos acabadas. Todas nós. Rugas, cabelos brancos, flacidez em pontos nunca dantes imaginados. De certa maneira, parte destas coisas se mostrou realidade. O corpo decai um degrau de tempos em tempos e se torna visível para você, sem mais nem menos. Olhamos no espelho e a coisa bate - Tum!

O que muda não é a compleição, é a consistência. Mas o choque passa logo, e é vida que segue. Então você percebe que, afora as pequenas adaptações do dia a dia (ir mais vezes ao cabeleireiro cobrir os brancos e afastar o jornal para ler melhor), se sente em upgrade em muitos aspectos. O principal deles é a sensação de mulher gabaritada. É, gabaritada. Como quando você é expert em risoto e sabe o segredo para repetir o sucesso (não é meu caso). É isso. Eu mesma. Passei a me sentir gabaritada para dizer não, e me sentir bem; ou dizer sim sem me sentir mal. E vice-versa.

Então, o que acontece?  Não vou mais uma corrida de Fórmula 1 . Me recuso inclusive a assistir na Tv. Principalmente porque... porque é detestável, ora! E só agora eu me sinto livre para assumir isto. Não há no mundo lugar mais desconfortável do que um autódromo e, no entanto, movida pela necessidade de impressionar os amigos e ex-namorados, me obrigava a achar a idéia de passar um domingo torturante sem comer nada além de um cachorro quente branco, sentar-me em algum pitoco de concreto fervente e responder com expressões faciais estúpidas a qualquer coisa que dissessem, unicamente porque não conseguia ouvir uma palavra do que diziam, uma alternativa super legal.

Também não, não faço questão de ir a musicais da Broadway. Muito menos ao Cirque Du Soleil. Passo. Fico com a segunda parte do programa: a da lanchonete onde comemos hambúrguer de madrugada com os amigos, a mesa de boteco com um banquinho e um violão no palco.

E, sim, eu gosto de ficar sábado à noite em casa, com meus vídeos, meu vinho, me lixando para o resto do mundo – em contrapartida aos meus trinta anos quando julgava, frustrada, que todo mundo se divertia aos gritos em algum lugar, menos eu.

Aos 40 anos você recusa imposições de vendedores e joga fora aquela calça que há vinte aguarda você voltar ao manequim 36. Não quer mais perder horas preciosas com almoços chatos, papo furado no telefone, reuniões infindáveis. O seu tempo vale muito. Em dinheiro mesmo: qualquer tristeza aprofunda aquele vinco do lado da boca e exigirá grandes investimentos em procedimentos dermatológicos.

Aos 40, a vida tende a ser bem mais leve. Uma amiga revelou-me o segredo de ter adquirido um semblante fresco e postura jovial de um dia para o outro: “Aumentei o número do meu sapato. Sou outra mulher. Fala sério...” Calças jeans grudadas. Saltos altos demais. Blusa apertada. Biquíni sexy que entra na bunda. Usar aquela bolsa pequena e inútil meigamente no antebraço; um acessório pelo qual pagamos uma fortuna para ter a sensação de paralisia de todo um lado do corpo que um AVC nos daria de graça.

Aos 40, você entende que é a roupa que tem de cair bem em você e não o contrário. E aquele maiô inteiro chique, as sandálias de plataforma, o óculos Jackie O e o lenço combinando com a bolsa, segundo a Vogue, perfeitos para um cruzeiro nas Ilhas Fidji, jamais serão usados desta maneira. Jamais serão usados, ponto.

Aos 40, o tal programa legal acontece (não uma ou duas, mas muitas vezes). Você vai estar no deck de um hotel encarapitado na montanha, tomando champanhe com o homem que deseja, de biquíni e sem canga pra esconder a celulite, quando, de repente, vocês riem da incontestável presença da idade: nenhum dos dois consegue ler as minúsculas letras de instruções de uso do óleo de massagem que compraram no sex shop. E é aí que tudo corre melhor ainda.



Escrito por Mariella Lazaretti às 23h51
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Sua camisa verde

 

 

Você estava de verde, eu estava cinza. Lembro bem de sua aproximação enérgica até minha impermeável pessoa. Uma armadura me envolvia. Eu estava levemente tensa como uma repórter deve estar diante do trabalho a cumprir, e de um sujeito desconhecido que me escrevia e-mails havia um mês. Você não. Você parecia leve, foi chegando com esses olhos verdes e bem dispostos, num zoom de dar medo. Rápido, pronto, se curvando até minha altura. Em uma mão não havia nada; mesmo assim eu a contive com um aperto de mão formal e preventivo. Na outra, uma folha de zona azul: “Já comprei pra você. Eu coloco lá, pode deixar”.

Dez anos depois penso que alguns segundos de nossas vidas são absolutamente decisivos. Estes foram. Percebi naquele breve instante que nada o deteria. Nenhum local proibido para estacionar, nenhum flanelinha, nenhum mosquito na salada. Lá estava um homem disposto a ser feliz - e comigo. Só que ainda não sabíamos disto. Ou sabíamos, sei lá; tantos mistérios que a gente carrega nos túneis da inconsciência...

 

Eu imaginava qualquer homem se encontrando comigo para uma entrevista sobre Encontros na Internet, menos aquele. De um sujeito que manda uma carta pra redação onde eu trabalhava elogiando uma reportagem minha, mas também vendendo embalagens práticas para palmitos ecológicos, a gente não sabe bem o que esperar. Nos e-mails seguintes trocados a respeito de... de qualquer coisa, nem me lembro bem o quê, ele se dizia divorciado, 36 anos, viajante contumaz da onírica ponte São Paulo- Belém do Pará. Mas...existia isto? Olha, existe uma dimensão diferente desta, logo ali pra te apresentar, você vai ver – era o que você anunciava com sua postura interessada e apaixonada pela Ilha de Marajó.

Seus e-mails chegavam pela internet claudicante da época, com o cheiro de floresta amazônica, o barulho das marés, o calor dos trópicos, e uma vontade teimosa de ser feliz expressa em cada parágrafo.

 

Bom, pensei: - se ele não for o Indiana Jones, é nortista. Fiz um retrato realista – sujeito cafuzo, talvez um anel de ouro no mindinho, baixo, calvo, camisa aberta até o terceiro botão e um cordão de ouro com a imagem do Círio de Nazaré. Escrevia bem, o que seria natural para um cara de Belém do Pará, estado que se auto proclama detentor do português mais puro do Brasil. Fantasiei o mínimo, e chegou você. Ah, Deus meu, que susto. Que surpresa - era o Indiana Jones, de chapéu de couro velho e tudo.

 

Para minha proteção justifiquei o blind date como parte do trabalho, uma nova fonte jornalística. Ou no mínimo um amigo interessante. Nunca um namoro. Nunca o homem da minha vida. (Mesmo assim, sabe como é, me preveni: antes, passei em casa e pus uma minissaia).

 

Então revejo você vindo até mim naquele dia de fevereiro de 1998.

Você estava de verde e eu estava cinza. Cinza e com medo de aproximações. Você, um homem grande, foi ficando maior à medida em que me desarmava.  E foi aí que tive a clara visão. Clara como a mesa que nos separava e os garçons querendo fechar a casa às quatro da tarde. Foi como um estalo surdo, uma voz vinda lá do fundo: ele é o cara. Mas não podia ser... parecia que o cara seria outro!

 

Era como se alguém acima de nós girasse o cenário em que nos encontrávamos fazendo os quadrantes do tempo correrem ao nosso redor, tudo sumindo e zunindo ao longe. Era minha vida mudando ali, na minha cara, com uma força que eu não conseguiria expressar conscientemente, mas de cuja nitidez me lembrarei para sempre.

Nossos destinos não seriam os mesmos depois do cafezinho que bebemos rápido, confusos e meio apavorados com o mistério daquela constatação mútua. Nada foi dito, e nem precisava.

 

Dez anos depois, vejo sua camisa verde em nossa casa, os punhos já puídos, e uma mancha produzida pelo ferro de alguma empregada distraída. Ela hoje vive mais tempo no armário do que fora dele. Perto dela há minhas meias, meus sapatos e uma caixinha com bilhetes trocados e fotos de nossos quatro filhos pequenos se conhecendo numa pizzaria. De vez em quando gosto de abrir aquela porta e olhar pra ela. É tão bom, tão bom vê-la ali, guardando a alegria de todas as cores que você trouxe à minha vida...



Escrito por Mariella Lazaretti às 19h04
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As irmãs somos nós

Se não cultivo mais amizades femininas do que tenho, é porque posso – tenho cinco irmãs. Cinco irmãs. Todo mundo se impressiona com a quantidade e a repetição do gênero. "Cinco? Todas mulheres?" . É a pergunta que ouço - e nesta ordem.

Quando era criança, esta admiração das pessoas por nosso time feminino me enchia de orgulho, e me destacava na multidão. Éramos, na visão dos outros, parte de algo extraordinário, uma espécie de confraria cuja intimidade despertava o desejo de ser experimentado por quem estava de fora. Os que tinham poucos irmãos ou nenhum, ansiavam por fazer parte da experiência selvagem de nossa casa. Alguns namorados, creio ainda hoje, adorariam ter teminado conosco, mas permanecido na família, envolvidos em nossas piadas, desfrutado um pouco mais a alegria e confusão de nossas refeições, os campeonatos de buraco e os churrascos. Queriam continuar na confraria, mesmo após o terror de assistir nossas brigas aparentemente definitivas e mortais, que duravam duas horas de cara virada e só.

Penso nas pessoas que têm irmãos e que desfizeram o laço em algum momento entre o medo do escuro e compra da casa própria. Tenho pena deles. E me sinto feliz. Me sinto feliz por ter resgatado com minhas irmãs o espírito de confraria da nossa infância.

Em muitas fases nos afastamos dos irmãos. Já fiz isto. Me afastei e retornei, olhei à distância e de perto. E percebo hoje que longe ou próximas, com relações viscerais ou esporádicas, minhas irmãs estão e estarão sempre comigo, flutuando num universo paralelo que só pertence a nós. 

Então imagino, em um breve vôo lisérgico, que os grandes amigos são como bolhas de espuma que flanam ao nosso redor, indo e vindo, circundando nossos momentos. Alguns mais, outros menos. Pego esta bolha e sopro, sopro, sopro até ser envolvida por ela - nela estou eu e minhas irmãs, com nossas vidas próprias, respirando a mesma atmosfera fraternal desde que nascemos. Jamais romperemos a bolha que nos conduz, por mais invisível e fina que ela se torne, porque é ela que nos carrega pela vida, seja lá para onde cada uma vá (bom, eu disse que era vôo lisérgico...) e que nos define como somos.

 Nem mesmo a diferença de personalidades, de perspectivas de vida ou a distância física - talvez fatais em amizades - seriam capazes de confiscar a onipresença deste amor parcial e partidário. Sou, sim, do partido delas e elas são do meu. Inimigos delas, são meus. Amigos delas, são meus. E vice-versa. Uma máfia, como dizem alguns amigos - se estamos com a razão ou não em algum contencioso, isto só será dito sutilmente entre nós. Ou nada sutilmente, vá lá.

Creio que muitos irmãos quebram o elo e escolhem carregar a mala sozinhos. Acho em última instância, total falta de imaginação. Irmãos são versões de nós mesmos - melhoradas aqui, pioradas ali...Gosto de reconhecer nelas coisas que eu mesma faria, e sobretudo as que não faria de jeito nenhum - como defender uma tese de medicina ou aprender numerologia. Porque, veja bem, por pouco eu seria capaz de fazer estas coisas... somos forjadas da mesma matéria. 

Olho minhas cinco irmãs e vejo que, a não ser por micro percentuais de poeiras genéticas que se perderam no frigir das moléculas, elas poderiam ser minha própria história contada de outro jeito. De cinco jeitos diferentes. Dá pra se sentir especial, não?



Escrito por Mariella Lazaretti às 14h15
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As declarações de amor na Dinamarca



Sou a favor das escancaradas declarações de amor. Acredito que todo mundo mereça uma declaração inesquecível (ou várias) na vida, tanto quanto uma aposentadoria decente. Pensando bem, as duas coisas podiam fazer parte dos planos de previdência - dinheiro mensal até a morte e garantia da terna lembrança de uma grande declaração de amor. Talvez na Dinamarca já haja isto. Ou na Suécia. Dentro do Plano Standard bastariam as boas lembranças. O Plano Luxo contemplaria no mínimo uma, ao menos uma declaração de amor desvairada. E se a declaração fosse comprovadamente correspondida - um grau acima em valoração – contaria com um adicional módico e justo - porque não há na vida nada que pague a confirmação de amor do ser amado. 

    Perdoem o momento Seinfeld aqui, mas tudo isto porque pensei nas coisas que fazemos ou recebemos quando estamos tomados de paixão. Como avaliar a importância que uma declaração sincera tem na vida das pessoas?

Pense naquelas ações cujo esforço, método e logística só chegam a seu alto grau de sofisticação, porque estão sob a imperiosa força da paixão - são estas, estas as que retratam a verdade do coração.


Lembro de algumas. Aliás, se há algo que devo agradecer a... a quem? Deus, talvez; são as lembranças doces dos momentos em que amei ou despertei o amor em alguém. E aqui volto ao absurdo Seinfeld: que preço teria a lembrança daquele rosto amolecido de amor, o ar surpreso e tolo que os apaixonados carregam, dizendo com a voz embargada  "eu te amo" de madrugada, para uma secretária eletrônica, ao fazer a descoberta avassaladora? Que preço teria o olhar abandonado à visão querida, que descobre enfim, o melhor jeito de expor seu coração atormentado?  Não sei. Sei que jamais, mesmo que esteja casada com um alemão chamado Alzheimer, me esquecerei das declarações que encheram minha vida de emoção.

 

 Eu estava seguindo para a Croácia a trabalho. Croácia, recém saída da guerra, triste. Inverno e eu sozinha. Parei uma noite em Roma e me hospedei em um hotelzinho muito simpático perto da Piazza Navona. Saí para caminhar e quando voltei, os concièrges, antes carrancudos, saudaram-me com uma euforia infantil. Achei aquilo “tão” simpático, que estranhei. Então abri meu quarto. Na cama, flores espalhadas em um ambiente a meia luz emolduravam um fax de uns dois metros comprimento com um texto delicioso, inteligente e refinado. O autor que iniciava ali um eterno caso de amor comigo, teve o trabalho de convencer do Brasil pelo telefone, em seu italiano colegial, os conciérges romanos historicamente mal humorados, a tungar as flores dos vasos espalhados pelo hotel (ainda não existia Flores Online internacional) e a compor o cenário. Tudo isto, sem dar gorjeta, só usando o plá de um apaixonado. “O amor é lindo”, eles me diziam risonhos, felizes em ter o que contar à noite em casa à família. Quanto ao amor, quem resiste a um cara destes?


Às vezes, a declaração chega atrasada, mas vale para a aposentadoria na Dinamarca, pelo menos. Uma grande paixão de muitos anos atrás atravessou o continente longitudinalmente para encontrar-me por uma única noite. Eu viajava a trabalho. Movido por aquela dor física que a ausência provoca em apaixonados, ele chegou adoentado. Seu mal era um misto de culpa por algo que ele deixara de fazer por nós um pouco antes da viagem, arrependimento e um chute letal que recebera na canela num jogo de futebol. Trazia um curativo na perna do tamanho de uma flâmula de futebol. Eu estava magoada e o vaso se rachara ali para nós dois.Talvez não tenha conseguido manifestar-me. Mas considerei o ato heróico e de uma sinceridade que nunca mais experimentaríamos neste relacionamento.


E houve uma música. Guardo na memória seus acordes simples. Ou melhor, guardo a estrofe. Quando ele disse que tinha composto uma canção para mim, fiquei radiante. Na época, ao ouvir a balada rock achei graça e entendi como uma manifestação dos sentimentos controversos de nosso caso. No violão, ele cantou com sua voz pequena : “Te detesto\ acho que nunca te disse isto antes”. Na verdade, sim, ele tinha dito algumas vezes já. De modo que...bom, Te detesto! o que esperar de um caso de amor cujo tema musical leva este título? Nada. Hoje vejo que ele agiu sob o mais legítimo desamparo amoroso, diante da constatação de nossa inviabilidade. Era o prenúncio do fim. Mesmo assim, foi feita para mim. E lembrarei de sua sonoridade triste em meus dias de aposentadoria na Dinamarca.





Escrito por Mariella Lazaretti às 20h16
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 A tesoura mortal da Shimiko

 

Assisti a um filme com Nicolas Cage – O Vidente, que conta a história de um cara que consegue prever o futuro com dois minutos de antecedência. Futuro imediatíssimo: ele vê a cena antes e a transforma. Muda o futuro a seu favor.

Impede um assassinato, ganha na roleta, assiste à reação de uma mulher a uma cantada sua.

Fiquei pensando nas vantagens de se ter dois minutos de gap contra o acaso. Dois minutos parecem pouco, mas podem ser o necessário para mudar um destino.

Se eu tivesse visto dois minutos antes, a barbaridade que a cabeleireira do Soho, a japonesa Shimiko ia fazer no meu cabelo em 1985, tudo teria sido diferente na minha vida. Tenho certeza. Quanto mais ela cortava, pior ficava. Aí, desesperada, ela tentou uma permanente, por conta da casa. O clima foi ficando tenso, os cabeleireiros cochichavam uns com os outros e o gerente ficou ao meu lado, em pé, me oeferecendo chá, café e chocolate. Eu chorava. 

Curto e encaracolado, a obra de arte da Shimiko - que acabou em sua demissão mediante o desastre consumado - destacava meu nariz no meio dos vales de minhas bochechas, como um Cyrano de Bergerac de peruca renascentista. Dois minutos com o talento de Nicolas Cage e eu teria escolhido o Tomai para aparar minhas madeixas longas e loiras, em vez da novata Shimiko. 

E não estaria aqui hoje, escrevendo este blog.

Também não teria derramado lágrimas manhãs e noites seguidas, comprado um arsenal de pasta de cabelo e presilhas, e suportado uma auto-estima baixa como tampa de bueiro. Eu teria ido à festa para a qual a Malu me convidou. Mas não fui: o visual do cabelo me acovardou.

Na festa estava o filho de um embaixador brasileiro que vivia em Paris e passava férias aqui. Malu e ele dançaram, se entenderam e namoraram. Fizeram uma viagem bárbara por toda a Europa. Malu freqüentou festas com autoridades, governantes e artistas de cinema. Esquiou nos Alpes, velejou no Mediterrâneo e esteve em banquetes em Marrocos e na China. Não se casou com o filho do embaixador francês que assumiu ser gay um ano depois, com o apoio da Malu, muito moderna e antenada com as tendências londrinas. Ficou tão querida na família que passou a freqüentar o mundo da diplomacia, casando-se três anos depois com um adido cultural de carreira promissora, lindo de morrer, que vivia em Berlim.

 Naquele dia eu fiquei em casa assistindo Pecado Capital e jogando buraco com uma tia que veio do interior. Assim que ela me viu na porta, se dobrou numa gargalhada desalmada. Era o meu cabelo. Fiquei com cara de italiana pobre e querubim sem asas, segundo ela.  Se eu estivesse com meus cabelos compridos e loiros como sempre tive, eu teria ido à festa, me sentindo segura e feliz. Talvez o filho do embaixador tivesse tirado a mim pra dançar. Eu dançava muito melhor que a Malu. Talvez eu tivesse até tentado o Instituto Rio Branco e virado eu mesma uma diplomata. Talvez eu tivesse me casado com um italiano. Ou não. Quem sabe.

Tudo porque não pude impedir que a tesoura da Shimiko me esfolasse o destino.



Escrito por Mariella Lazaretti às 12h54
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Os reis magos e a Bupropiona

 

Minha amiga Bia passa lá em casa domingo à tarde para fazermos juntas uma simpatia para os Três Reis Magos. Segundo ela, é tiro e queda pra ganhar dinheiro em 2008. Não que ganhar mais dinheiro seja necessário, mas é sempre bom se prevenir.

Duvido inicialmente da eficácia da mandinga. Olho para a Bia, uma feroz trabalhadora, mas que não tem dinheiro assim, sobrando. Parece que ela adivinha meus pensamentos e diz: "Olha eu, não sou rica, mas nunca fico sem dinheiro. Sempre pinta algum. Faço a simpatia há anos".

Então concordo. Tudo depende de seu grau de necessidade.

Ela chega carregando uma romã. Tira da bolsa um papel amassado onde há uma oração escrita. Dois dos meus filhos vêm lhe dar um beijo. Bia é minha amiga há quase vinte anos. Grande amiga – meio maluquete, mas por isso mesmo muito querida. Sentamo-nos na ponta da grande mesa da sala. Os quatro. Recebemos as instruções da Bia. Temos de escrever a oração em um papel, lê-la em voz alta, chupar três grãos de romã, depositando as sementes sobre o papel. Em seguida, devemos enrolar a oração escrita de punho próprio, com as três sementes babadas de romã em uma nota de dinheiro. O rolinho de dinheiro, a reza e a romã devem permanecer na carteira o ano todo, para que na mesma data de 2009 doemos a nota a algum menino pobre. Tem de ser do sexo masculino, ela diz, e eu suponho que talvez faça mais efeito se o menino tiver barba como Jesus.

Me vejo fazendo isto com meus dois filhos na mesa da sala e a cena me enternece. Damos muita risada do nosso jogral ridículo, lendo a oração em voz alta como se estivéssemos levando um plá com os três reis magos. Acho-os lindos, ali, tão mocinhos e alegres levando a intenção da mãe e da tia a sério. Penso que, no fim das contas, devo ter sido uma boa mãe. Eles são tão legais...

Bom, talvez nem seja mérito meu, mas da escola, da genética, dos avós.

O fêcho da oração que inicialmente se mostra meiga, acaba como uma ameaça categórica a cada um dos três reis magos: "São Melchior passe o dinheiro pra cá. São Balthazar passe o dinheiro pra cá. São Gaspar passe o dinheiro pra cá". Pô, Bia, diz um dos meninos, não é uma oração, é um assalto. Damos mais risadas. Faço um café.

Bia me conta como foi o natal dela...a filha que veio visitá-la e cobrá-la do passado. Eu conto sobre o meu. Que foi tão bom, com amigos queridos, minha enorme família. Mas depois que ela se vai, me dou conta de que estou na fase mais difícil do ano. A fase do sofrimento por antecipação.

Esta é a época do ano em que faço planos concretos para ir viver na Bahia. É o que desejo. Me vejo lá em uma casa simples, com um tererê no cabelo pronta para de viver da pesca de subsistência.

É que de pensar nas partes chatas do trabalho no próximo ano, me dá uma gastura... Se fosse só família e amigos, mas há os prazos, as negocições, as pessoas, o dinheiro, as contas. As pessoas. Algumas tão absolutistas. Queria eu ser a absolutista, mas nem isso posso ser.

Penso no evento enorme e grandioso de gastronomia que faço todo ano e que me consome, mas que se tornou tão importante que é impossível eliminá-lo. É bom na hora em que ele está acontecendo. A adrenalina dá pique. Mas antes, até chegar lá, é um martírio lento. É como estar na fila da montanha russa: primeiro você ensaia para cair fora, mas percebe que a multidão te empurra pra entrar no carrinho. Então você senta no carrinho, percorrendo lentamente a subida que subitamente te jogará no abismo. Você sabe o que te espera, sabe qual vai ser a dor, mas não há o que fazer a não ser ultrapassar o obstáculo sem anestesia.

Ai, Deus meu...

Vou até a cozinha e abro minha caixa de Cloridrato de Bupropiona. Tomo minha dose diária. Penso que está na hora de dar um tempo no remédio. É o que dizem: um ano com, um ano sem. Mas logo que engulo aquilo penso em coisas boas (não por causa do remédio propriamente, mas por uma cadeia de associações de idéias).

Então paro e digo a mim mesma, poxa, tem bastante coisa que eu não sei de antemão pra acontecer também. Coisas que podem ser boas.Me vejo rindo, jantando entre pessoas queridas, tomando caipirinha na praia, celebrando aniversários de meus filhos, viajando, fechando novos negócios, fazendo projetos legais...Me sinto feliz, segura, amada, necessária. Que maravilha...

Fecho a caixinha. Antes verifico quantas pílulas ainda têm lá dentro. Decisão de ano novo: não largo este remédio nem a pau.



Escrito por Mariella Lazaretti às 20h17
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A felicidade até existe




- Alô.


- Alô. Tudo bem?


- Quem é?


- Eu. Eu...não reconhece mais?


- Beto?


- Sabia que você não tinha esquecido. Eu mesmo. Como vai?


- Puxa, quanto tempo! ... Vou indo. Não, não: vou bem!


- Soube que você se separou.


- É, já faz um tempo. E você?


- Continuo firme com a Luciana. Quer dizer...


- Quantos anos faz, 20 anos?


- Dezoito anos. E você?


- Bom, fiquei com o Tato nove anos. Três filhos. Me separei faz quase um ano. Não tive tanta persistência quanto você. Preferi acabar com nosso sofrimento e dar a chance do Tato ser feliz.


- E a você mesma também...Seu marido era muito parado. Saía pouco, só ficava em casa lendo e tomando uísque.


-É. A vida é curta. E como dizia Roberto Carlos, a felicidade até existe.


- Olha, já faz tanto tempo, mas queria te dizer uma coisa.


- Faz mesmo.... O quê, uns 20 anos, pelo menos.


- É. E neste tempo todo não houve um dia. Um único e mísero dia em que não tenha pensado em você.


- (respiração dela)


- Queria que você soubesse.


- (mudez atônita)


- (respiração dele)


- E isto é bom, Beto? Ter pensado em mim fez você se sentir aliviado com sua escolha? Quer dizer. Quando terminamos você foi tão claro em me dizer que jamais se casaria. Que casamento é uma instituição falida, que seria nossa morte, que isso e aquilo...


- E me casei, um ano depois... Eu sei. Você deve ter se perguntado onde errou.


- Você continua engraçado. EU ERREI? E você que pensou em mim todos os dias...Sempre quis saber como foi que “isto” aconteceu com você. Quando foi que você desistiu de ser um lobo solitário e se entregar ao tédio do casamento por... hummm, dezoito anos?


- Não tenho esta ilusão. Nunca tive. Felicidade é uma quimera. Com você eu ia ficar desesperado, achando que eu não ia conseguir.


- Olha gosto tanto desta palavra – Quimera - que dei como nome a um jumento que tenho na fazenda. O Quimera é uma graça, mas tem preguiça de fazer qualquer coisa, fica pastando sempre no mesmo lugar.


- Ponto pra você. Continua afiada.


- Não... não quis ofender, longe de mim...E você, vivendo la vida loca? Tem lido coisas boas, visto filmes legais?


- Saio pouco.


- Nem sai pra jantar, dançar? Viaja, então?


- Não, não... Fico em casa lendo. Continuo no mesmo emprego. E você?


- Bom, minha vida deu uma mudada... Tenho aulas de dança de salão, fiquei na Itália um período, agora, recentemente, voltei de um período na Bahia. Aluguei uma casa lá. E hoje, acabei de ver Amor nos Tempos do Cólera. Filmaço.


- O livro é bárbaro, mas aquilo é impossível. Amar uma pessoa a vida toda.


- Sabe que eu discordo. É o mais lindo final de romance de todos os tempos. Que o barco não pare nunca mais, nunca mais...


- Você? Você acabou de se separar. Como pode dizer que acredita em final feliz?


- Ué, por isso mesmo. Acredito e vou sempre acreditar que ninguém nasceu pra viver sem ser decentemente amado. Acabar o romance é acidente. A luta é o que interessa.


- Como você é boba. Continua boba. Você conhece alguém feliz no casamento?


- Conheço. Eu. Fui feliz por um bom tempo. E acho que a busca vale a pena.


- Ah, tá bom... quem é o cara?


- Tem um cara, sim. E estou gostando do que ele quer.


- Sexo. Ele quer sexo? Sexo sempre foi bom com você.


- Você não aprendeu nada. Não, ele quer entrar na minha vida. Quer se jogar de cabeça. Quer que tudo dê certo.


- Ah, conta outra. O cara deve ser um bobo alegre.


- Alegre, sim, mas nada bobo. Chega de gente triste na minha vida, angustiada...


- É, não parece bobo, não. Está dormindo com você.


- Machistinha casca grossa... E invejoso, você! Não aprendeu muito desde os anos 80. Um relacionamento não é só sexo ou só ligação intelectual. Tem de ter um pouco de tudo. Tem a alegria da companhia. Querer estar junto, sabe? De dividir impressões...


- Isto eu sei fazer bem. Dividir tédio.


-Sabe o que sempre me irrita? Homem que reclama de casamento, mas continua casado. Como se não tivesse vontade própria. Você acha que pode fazer uma mulher feliz, reclamando da vida o tempo todo? Por que ela seria legal com quem faz isto?


-Não é fácil se separar. Tem os filhos...


-Eu também tenho. E para mim sempre foi mais difícil acordar e dormir achando que eu estava perdendo uma festa em algum lugar. A tristeza mata. Dá câncer.



Escrito por Mariella Lazaretti às 23h36
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