Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 4Capas Editora
 Revista Prazeres da Mesa
 UOL - O melhor conteúdo


 
Mariella Lazaretti- ignorâncias universais



Eu não seria eu se...



...Fosse abstêmia, mas fumasse.


...Recusasse uma taça de dry Martini.


... e a segunda taça de dry Martini.


...Comprasse roupas de grife


...Soubesse qualquer coisa em francês além de cherché e avec.


...Me arrependesse de comer batatas fritas e chocolate.


...Viajasse de executiva como pessoa física.


...Surfasse no novo Windows Vista. Ou no velho..


...Usasse calcinhas fio dental


...Fosse consumidora de desodorante


...Topasse fazer mergulho


...Comesse pele de frango e nhoque


...Desprezasse Sidney Magal e Wando


...Adorasse ir a ópera para ouvir gordos gritarem comigo


...Não admitisse enorme prazer em brigar com o Unibanco.


...Considerasse o George Harrison o menos importante dos 4.


...Evitasse farmácias de modo geral, e as Raias e Drogões em particular.


...Participasse de clubes. Religiosos, políticos, até os com piscina e vestiário.


...Ficasse parada 15 minutos sem pensar que tenho de fazer algo imediatamente


...Não dormisse de meias


...Tivesse lido Proust inteiro


...Detestasse Free shops.


...Pudesse doar sangue.


...Ficasse parada quando toca “It’s Raining Man”


...Te convidasse pra assistir O Exorcista .


...Tivesse mãos, pés e nariz de princesa.


...Não falasse putz grila e bacana.




...Não tivesse preguiça de escrever de vez em quando.
... E enchesse uma página com coisas estúpidas sobre mim mesma, usando uma oração negativa metida a besta como início de papo.


Mas a vida é assim, né? A gente é sempre de um jeito, até precisar ser de outro.



Escrito por Mariella Lazaretti às 20h55
[] [envie esta mensagem] []



 Huuugoo!

 

 

 

O ultraje do Poços de Caldas

 

 

Sozinha não dou conta. Preciso que todos se unam em uma intelectual guerrilha contra esta atitude vil e traiçoeira da cultura moderna. Contra esta atitude mesquinha e impessoal. Sim, este negócio absurdo de arruinar as pequenas coisas boas que aprendemos a amar desde que nascemos.

Vai lá: requeijão Poços de Caldas.

 

Me diz: o que aqueles caras merecem ao transmutar o ícone inesquecível da nossa infância na gosma pegajosa  com gosto de isopor derretido que temos de encarar hoje? E ainda embalada em um copo de plástico, em plena campanha global contra lixo no planeta! Eles, sempre eles.

 

Eles que sentam em volta de uma mesa oval com planilhas na mão e dizem ao velhinho que faz a mesma receita de iogurte há 35 anos para colocar farinha na mistura, pra que os números engordem. E depois riem gargalhadas fantasmagóricas e enrolam uma mão na outra, vingativos contra nós, crianças atônitas diante da fatia de pão surrupiada das lancheiras cheirando a suco de uva.

São eles, os monstros do capitalismo selvagem. O que fazer para impedi-los?

 

Se eu fosse ditadora (o que não é raro de acontecer em meu pequeno círculo de atuação), mandava estes homens sem compaixão carpir cana, para ver quanto vale um pequeno prazer na vida de gente honesta como você e eu. Sabe um banho gostoso? Sabe um lençol estalando de limpo? Então. Deixa estes caras sem isso, suando debaixo de um chapéu de palha, e só com um lenço pra limpar o sangue do corte do facão, pra ver como eles voltam com mais respeito.

 

Dos copos de vidro do Poços de Caldas eu nem gostava tanto, mas faziam parte da família. Eram tantos em nossa casa que chegava a me sentir ameaçada por eles como se fossem Kikos Marinhos em procriação. Um dia, pensava, eles tomarão conta de tudo.  Mas o sabor do legítimo Poços de Caldas... Aquela cremosidade de queijo adocicado que tínhamos todas as manhãs, antes do velhinho da receita ser acorrentado num porão pela compradora Danone,... ai meu Deus, que saudades me dá.

 

A primeira vez que experimentei um requeijão Poços de Caldas foi aos 5 anos, na casa da Dona Egle. Na minha casa não se comia requeijão Poços de Caldas. Era caro, e minha mãe mantinha as contas da casa, com (então) cinco filhas, na ponta do lápis. ( A saber, ela teve a sexta filha e, aí com as vacas mais gordas, comíamos champinhom e requeijão). A primeira vez que senti aquele traço de queijo suave, se insinuando dos dois lados da língua como um abraço saboroso, fiquei assombrada com a textura e prazer inéditos que acabara de vivenciar. Algo que poderia ser comparado, em termos de graduação prazerosa, ao Leite Condensado Moça, este que, com a graça de Nossa Senhora dos Prazeres, permanece o mesmo.

 

Mas hoje, cadê? Acabou. Como disse um amigo gourmet, horrorizado com a proliferação de foie gras de quinta no mundo: “Eles transformam os produtos bons em um produto ao alcance de todos e, assim, todos têm acesso à merda democraticamente”.

 

Sonho de Valsa. Taí outro problema sério de ordem pública. O que fizeram com aquela oitava maravilha do mundo? Não venham me dizer que a nostalgia dá melhor sabor a tudo. Não, não. Desde que a Lacta foi vendida para a ... quem mesmo? O Sonho de Valsa vem caindo de qualidade. Lentamente, que é pra ver se a gente não percebe.

Aquela lua cheia, macia, que você pressionava entre a língua o céu da boca, com os olhinhos virados de felicidade, sentindo a leve fricção de cristais de amendoins na mucosa, virou uma pasta farinhenta, sem gosto.

 

Fala pra mim, é ou não ultrajante? Você, um ser aque nasce vulnerável e crente, crescer feliz com as gentilezas da vida, como luz elétrica e a televisão; e, de repente, se ver subtraído destes hábitos que te pareciam um mérito congênito...vai pensar o quê? Que alguém está tentando de tapear, ora.

E está.

Requeijão decente, sonho de valsa de verdade, namorar na Ilha Porchat, mingaus do Monte Líbano, tobogãs, leite e frango sem veneno, música nova, boa e atéia do Roberto Carlos, festival internacional da canção...

 

Levam tudo que a gente gosta embora e querem e fiquemos quietos.

 

É como viver numa ruazinha tranqüila desde que você nasceu, onde os vizinhos param os carros indiferentes à mão permitida, a molecada joga bola na rua; e, de repente, numa bela manhã, dar de cara com uma placa de Proibido Estacionar em frente ao portãozinho baixo da sua casa.

Peralá, minha gente. Tudo tem limite! 

 Por isso, os convoco.

As coisas boas da vida têm de voltar ao seu lugar de direito. Paremos de comprar, liguemos no 0800 e gritemos a plenos pulmões: - TIREM O VELHINHO DO CALABOUÇO!



Escrito por Mariella Lazaretti às 16h54
[] [envie esta mensagem] []



 

 

É pequeno burguês, mas tenho de falar da Dasdores

 

É sempre injusto considerar que aquela moça, a empregada doméstica de sua casa, não raciocina bem. Eu sei. Me sinto ultra mal de pensar assim e nem queria falar neste assunto, porque no fundo esta atitude é tão país de terceiro mundo! É tão colonizador sobre colonizado indígena! Pô, ter empregada já é coisa de burguês-feladaputa e eu ainda venho aqui chorar pitanga?

 

Mas digamos que não seremos nós, nos próximos dias corridos do mês, que deixaremos mais uma empregada sem salário para pagar o aluguel e a 36ª prestação do quarto completo das Casas Bahia. Vamos admitir - e que nenhum estudante de ciências sociais da USP nos ouça: não é fácil. Não é fácil decodificar os passos errantes dos neurônios destas valorosas guerreiras do pano úmido. Sem querer generalizar, longe de mim, mas a cena é familiar e é a seguinte:

 

 De manhã, atrasada pra reunião, você vai à cozinha e com determinação e objetos didáticos, ajeita tudo na pia pra que fique claro. Que não paire dúvida. Que não haja qualquer motivo para ela decidir por conta própria. Você fala, fala, fala. Retoma, explica de novo.

 

O relógio corre, mas você sabe que é preciso insistir. Ela nem respira. Ela está ali, ao que tudo indica, de corpo e alma, a despeito do olhar paradão. Você pergunta: entendeu? Ela mexe a cabeça que sim. Tchau, lá vai você para a selva capitalista. Ela fica. Fica e divide o que você disse com o que ela acha que ouviu, noves fora nada, somado com o que a prima mandou pelo telefone – pronto: é o que vai rolar do jantar que você passou uma hora explicando.

 

 Então você, que pediu para ela cozinhar a alcachofra sem tempero algum e assar o filé mignon com todos as ervas que separou, chega em casa e encontra a alcachofra cheia de ervas esturricada no forno e o filé mignon esfarelando na panela de pressão sem tempero. Fala sério.

 

Atire a primeira pedra quem...Seus filhos intercedem, dizendo que ela não comeu proteína na infância, e te fazem sentir uma patricinha mesquinha.Enquanto você, burguesa de unhas feitas, só queria chegar em casa e encontrar a alcachofra cozida e o filé assado. É pedir demais?

 

Aí, é fim de semana. Você vai procurar o shorts de corrida que usou no sábado passado. Faz tempo que ele se foi nas mãos de Dasdores e isso te inquieta.

 

Percebe que errou na condução da lavagem desta peça. Não usou mapas estratégicos, bonecos de massinha e jogos de colorir. Fica tensa ao se aproximar do armário onde o shorts entra e sai há 10 anos sem problemas. Mentalmente visualiza o pobrezinho sozinho com a Dasdores na lavanderia. Sem condições de gritar por socorro. Totalmente à mercê do raciocínio tortuoso da Dasdores.

 

Pensa nas coisas que ele, aquele pequeno shorts que você adora, que não se encontra mais à venda desde os anos 90, que é curto, mas cobre bem a bunda, é justo, mas maleável para correr, pode ter sofrido. Ele não podia ser passado a ferro, não podia ir na máquina, não podia secar à sombra. Você imagina de onde a desgraça poderá te acertar.

 

É sábado de manhã e você já está trincando os dentes. Sua adrenalina cai no sangue quando você abre a gaveta e... não há aquela, nem qualquer outra peça em seu lugar habitual. Olha na gaveta de cima, de seu marido, e não há uma cueca disponível. Seu coração dispara, suas mãos crispam.

 

Esquece o shorts. Que se dane o shorts :– Cadê a porra daquele monte de roupa minha que devia estar aqui? Cadê minha camiseta branca? Onde ela pôs a calça de lycra que eu ia usar segunda? Se ela não me matar hoje, mato esta mulher, juro!

 

 Você sai abrindo portas e gavetas e rememorando o discurso que fez na semana passada - eu disse, Dasdores, se você não sabe onde ficam as roupas, deixe tudo ali em cima; naquele quarto, que a gente se incumbe de guardar.

 

Mas quê? Nada no lugar. Ela tomou a decisão de melhorar o cazzo da logística da casa. Você revira os armários e a área de serviço em busca das roupas lavadas durante a semana. Em vão. Senta num banquinho de canto e chora de “nervo”.

 

 Enfim, exausta e com início de angina, tenta pensar como ela pode ter pensado. Vai até o armário do último quarto. Apóia os pés nas gavetas para chegar ao ponto mais alto e inimaginável para alguém guardar roupas -  a terra de ninguém escura e solitária onde jaz a caixa da árvore de natal.

 

Sim, sim: lá estão montinhos de roupas dobradinhas. Passadinhas. Tudo, absolutamente tudo, o que ela conseguiu amealhar durante a semana. Lençóis, toalhas, toalha de mesa, que ela fez questão de colocar como você disse: “ali em cima, no quarto”. Não em cima da cama; não em cima da cômoda; lá em cima, no armário do esquecimento, onde as roupas podiam ser encontradas às vésperas do natal. E nós estamos em abril.

 

 Aí alguém me pergunta por que não mando a Dasdores embora? Pois é, eu me pergunto isto todos os dias. Mas, sabe, ela é boazinha, coitada. Honesta, tem filhos em idade escolar e um marido beberrão.  Também, ficar sem empregada e ensinar tudo de novo pra outra, é duro... Por mais politicamente incorreto que seja meu discurso, convenhamos - é duro!



Escrito por Mariella Lazaretti às 16h28
[] [envie esta mensagem] []



 


Os sim e os nãos dos 40 anos



Aí chegaram os 40 anos. Hoje, 40 e alguns anos. Achei que estaríamos acabadas. Todas nós. Rugas, cabelos brancos, flacidez em pontos nunca dantes imaginados. De certa maneira, parte destas coisas se mostrou realidade. O corpo decai um degrau de tempos em tempos e se torna visível para você, sem mais nem menos. Olhamos no espelho e a coisa bate - Tum!

O que muda não é a compleição, é a consistência. Mas o choque passa logo, e é vida que segue. Então você percebe que, afora as pequenas adaptações do dia a dia (ir mais vezes ao cabeleireiro cobrir os brancos e afastar o jornal para ler melhor), se sente em upgrade em muitos aspectos. O principal deles é a sensação de mulher gabaritada. É, gabaritada. Como quando você é expert em risoto e sabe o segredo para repetir o sucesso (não é meu caso). É isso. Eu mesma. Passei a me sentir gabaritada para dizer não, e me sentir bem; ou dizer sim sem me sentir mal. E vice-versa.

Então, o que acontece?  Não vou mais uma corrida de Fórmula 1 . Me recuso inclusive a assistir na Tv. Principalmente porque... porque é detestável, ora! E só agora eu me sinto livre para assumir isto. Não há no mundo lugar mais desconfortável do que um autódromo e, no entanto, movida pela necessidade de impressionar os amigos e ex-namorados, me obrigava a achar a idéia de passar um domingo torturante sem comer nada além de um cachorro quente branco, sentar-me em algum pitoco de concreto fervente e responder com expressões faciais estúpidas a qualquer coisa que dissessem, unicamente porque não conseguia ouvir uma palavra do que diziam, uma alternativa super legal.

Também não, não faço questão de ir a musicais da Broadway. Muito menos ao Cirque Du Soleil. Passo. Fico com a segunda parte do programa: a da lanchonete onde comemos hambúrguer de madrugada com os amigos, a mesa de boteco com um banquinho e um violão no palco.

E, sim, eu gosto de ficar sábado à noite em casa, com meus vídeos, meu vinho, me lixando para o resto do mundo – em contrapartida aos meus trinta anos quando julgava, frustrada, que todo mundo se divertia aos gritos em algum lugar, menos eu.

Aos 40 anos você recusa imposições de vendedores e joga fora aquela calça que há vinte aguarda você voltar ao manequim 36. Não quer mais perder horas preciosas com almoços chatos, papo furado no telefone, reuniões infindáveis. O seu tempo vale muito. Em dinheiro mesmo: qualquer tristeza aprofunda aquele vinco do lado da boca e exigirá grandes investimentos em procedimentos dermatológicos.

Aos 40, a vida tende a ser bem mais leve. Uma amiga revelou-me o segredo de ter adquirido um semblante fresco e postura jovial de um dia para o outro: “Aumentei o número do meu sapato. Sou outra mulher. Fala sério...” Calças jeans grudadas. Saltos altos demais. Blusa apertada. Biquíni sexy que entra na bunda. Usar aquela bolsa pequena e inútil meigamente no antebraço; um acessório pelo qual pagamos uma fortuna para ter a sensação de paralisia de todo um lado do corpo que um AVC nos daria de graça.

Aos 40, você entende que é a roupa que tem de cair bem em você e não o contrário. E aquele maiô inteiro chique, as sandálias de plataforma, o óculos Jackie O e o lenço combinando com a bolsa, segundo a Vogue, perfeitos para um cruzeiro nas Ilhas Fidji, jamais serão usados desta maneira. Jamais serão usados, ponto.

Aos 40, o tal programa legal acontece (não uma ou duas, mas muitas vezes). Você vai estar no deck de um hotel encarapitado na montanha, tomando champanhe com o homem que deseja, de biquíni e sem canga pra esconder a celulite, quando, de repente, vocês riem da incontestável presença da idade: nenhum dos dois consegue ler as minúsculas letras de instruções de uso do óleo de massagem que compraram no sex shop. E é aí que tudo corre melhor ainda.



Escrito por Mariella Lazaretti às 23h51
[] [envie esta mensagem] []



 

 

 

 

Sua camisa verde

 

 

Você estava de verde, eu estava cinza. Lembro bem de sua aproximação enérgica até minha impermeável pessoa. Uma armadura me envolvia. Eu estava levemente tensa como uma repórter deve estar diante do trabalho a cumprir, e de um sujeito desconhecido que me escrevia e-mails havia um mês. Você não. Você parecia leve, foi chegando com esses olhos verdes e bem dispostos, num zoom de dar medo. Rápido, pronto, se curvando até minha altura. Em uma mão não havia nada; mesmo assim eu a contive com um aperto de mão formal e preventivo. Na outra, uma folha de zona azul: “Já comprei pra você. Eu coloco lá, pode deixar”.

Dez anos depois penso que alguns segundos de nossas vidas são absolutamente decisivos. Estes foram. Percebi naquele breve instante que nada o deteria. Nenhum local proibido para estacionar, nenhum flanelinha, nenhum mosquito na salada. Lá estava um homem disposto a ser feliz - e comigo. Só que ainda não sabíamos disto. Ou sabíamos, sei lá; tantos mistérios que a gente carrega nos túneis da inconsciência...

 

Eu imaginava qualquer homem se encontrando comigo para uma entrevista sobre Encontros na Internet, menos aquele. De um sujeito que manda uma carta pra redação onde eu trabalhava elogiando uma reportagem minha, mas também vendendo embalagens práticas para palmitos ecológicos, a gente não sabe bem o que esperar. Nos e-mails seguintes trocados a respeito de... de qualquer coisa, nem me lembro bem o quê, ele se dizia divorciado, 36 anos, viajante contumaz da onírica ponte São Paulo- Belém do Pará. Mas...existia isto? Olha, existe uma dimensão diferente desta, logo ali pra te apresentar, você vai ver – era o que você anunciava com sua postura interessada e apaixonada pela Ilha de Marajó.

Seus e-mails chegavam pela internet claudicante da época, com o cheiro de floresta amazônica, o barulho das marés, o calor dos trópicos, e uma vontade teimosa de ser feliz expressa em cada parágrafo.

 

Bom, pensei: - se ele não for o Indiana Jones, é nortista. Fiz um retrato realista – sujeito cafuzo, talvez um anel de ouro no mindinho, baixo, calvo, camisa aberta até o terceiro botão e um cordão de ouro com a imagem do Círio de Nazaré. Escrevia bem, o que seria natural para um cara de Belém do Pará, estado que se auto proclama detentor do português mais puro do Brasil. Fantasiei o mínimo, e chegou você. Ah, Deus meu, que susto. Que surpresa - era o Indiana Jones, de chapéu de couro velho e tudo.

 

Para minha proteção justifiquei o blind date como parte do trabalho, uma nova fonte jornalística. Ou no mínimo um amigo interessante. Nunca um namoro. Nunca o homem da minha vida. (Mesmo assim, sabe como é, me preveni: antes, passei em casa e pus uma minissaia).

 

Então revejo você vindo até mim naquele dia de fevereiro de 1998.

Você estava de verde e eu estava cinza. Cinza e com medo de aproximações. Você, um homem grande, foi ficando maior à medida em que me desarmava.  E foi aí que tive a clara visão. Clara como a mesa que nos separava e os garçons querendo fechar a casa às quatro da tarde. Foi como um estalo surdo, uma voz vinda lá do fundo: ele é o cara. Mas não podia ser... parecia que o cara seria outro!

 

Era como se alguém acima de nós girasse o cenário em que nos encontrávamos, fazendo os quadrantes do tempo correr ao nosso redor, tudo sumindo e zunindo ao longe. Era minha vida mudando ali, na minha cara, com uma força que eu não conseguiria expressar conscientemente, mas de cuja nitidez me lembrarei para sempre.

Nossos destinos não seriam os mesmos depois do cafezinho, que bebemos rápido, confusos e meio apavorados com o mistério daquela constatação mútua. Nada foi dito, e nem precisava.

 

Dez anos depois, vejo sua camisa verde em nossa casa, os punhos já puídos, e uma mancha produzida pelo ferro de alguma empregada distraída. Ela hoje vive mais tempo no armário do que fora dele. Perto dela há minhas meias, meus sapatos e uma caixinha com bilhetes trocados e fotos de nossos quatro filhos pequenos se conhecendo numa pizzaria. De vez em quando gosto de abrir aquela porta e olhar pra ela. É tão bom, tão bom vê-la ali, guardando a alegria de todas as cores que você trouxe à minha vida...



Escrito por Mariella Lazaretti às 19h04
[] [envie esta mensagem] []



 

As irmãs somos nós

Se não cultivo mais amizades femininas do que tenho, é porque posso – tenho cinco irmãs. Cinco irmãs. Todo mundo se impressiona com a quantidade e a repetição do gênero. "Cinco? Todas mulheres?" . É a pergunta que ouço - e nesta ordem.

Quando era criança, esta admiração das pessoas por nosso time feminino me enchia de orgulho, e me destacava na multidão. Éramos, na visão dos outros, parte de algo extraordinário, uma espécie de confraria cuja intimidade despertava o desejo de ser experimentado por quem estava de fora. Os que tinham poucos irmãos ou nenhum, ansiavam por fazer parte da experiência selvagem de nossa casa. Alguns namorados, creio ainda hoje, adorariam ter teminado conosco, mas permanecido na família, envolvidos em nossas piadas, desfrutado um pouco mais a alegria e confusão de nossas refeições, os campeonatos de buraco e os churrascos. Queriam continuar na confraria, mesmo após o terror de assistir nossas brigas aparentemente definitivas e mortais, que duravam duas horas de cara virada e só.

Penso nas pessoas que têm irmãos e que desfizeram o laço em algum momento entre o medo do escuro e compra da casa própria. Tenho pena deles. E me sinto feliz. Me sinto feliz por ter resgatado com minhas irmãs o espírito de confraria da nossa infância.

Em muitas fases nos afastamos dos irmãos. Já fiz isto. Me afastei e retornei, olhei à distância e de perto. E percebo hoje que longe ou próximas, com relações viscerais ou esporádicas, minhas irmãs estão e estarão sempre comigo, flutuando num universo paralelo que só pertence a nós. 

Então imagino, em um breve vôo lisérgico, que os grandes amigos são como bolhas de espuma que flanam ao nosso redor, indo e vindo, circundando nossos momentos. Alguns mais, outros menos. Pego esta bolha e sopro, sopro, sopro até ser envolvida por ela - nela estou eu e minhas irmãs, com nossas vidas próprias, respirando a mesma atmosfera fraternal desde que nascemos. Jamais romperemos a bolha que nos conduz, por mais invisível e fina que ela se torne, porque é ela que nos carrega pela vida, seja lá para onde cada uma vá (bom, eu disse que era vôo lisérgico...) e que nos define como somos.

 Nem mesmo a diferença de personalidades, de perspectivas de vida ou a distância física - talvez fatais em amizades - seriam capazes de confiscar a onipresença deste amor parcial e partidário. Sou, sim, do partido delas e elas são do meu. Inimigos delas, são meus. Amigos delas, são meus. E vice-versa. Uma máfia, como dizem alguns amigos - se estamos com a razão ou não em algum contencioso, isto só será dito sutilmente entre nós. Ou nada sutilmente, vá lá.

Creio que muitos irmãos quebram o elo e escolhem carregar a mala sozinhos. Acho em última instância, total falta de imaginação. Irmãos são versões de nós mesmos - melhoradas aqui, pioradas ali...Gosto de reconhecer nelas coisas que eu mesma faria, e sobretudo as que não faria de jeito nenhum - como defender uma tese de medicina ou aprender numerologia. Porque, veja bem, por pouco eu seria capaz de fazer estas coisas... somos forjadas da mesma matéria. 

Olho minhas cinco irmãs e vejo que, a não ser por micro percentuais de poeiras genéticas que se perderam no frigir das moléculas, elas poderiam ser minha própria história contada de outro jeito. De cinco jeitos diferentes. Dá pra se sentir especial, não?



Escrito por Mariella Lazaretti às 14h15
[] [envie esta mensagem] []



As declarações de amor na Dinamarca



Sou a favor das escancaradas declarações de amor. Acredito que todo mundo mereça uma declaração inesquecível (ou várias) na vida, tanto quanto uma aposentadoria decente. Pensando bem, as duas coisas podiam fazer parte dos planos de previdência - dinheiro mensal até a morte e garantia da terna lembrança de uma grande declaração de amor. Talvez na Dinamarca já haja isto. Ou na Suécia. Dentro do Plano Standard bastariam as boas lembranças. O Plano Luxo contemplaria no mínimo uma, ao menos uma declaração de amor desvairada. E se a declaração fosse comprovadamente correspondida - um grau acima em valoração – contaria com um adicional módico e justo - porque não há na vida nada que pague a confirmação de amor do ser amado. 

    Perdoem o momento Seinfeld aqui, mas tudo isto porque pensei nas coisas que fazemos ou recebemos quando estamos tomados de paixão. Como avaliar a importância que uma declaração sincera tem na vida das pessoas?

Pense naquelas ações cujo esforço, método e logística só chegam a seu alto grau de sofisticação, porque estão sob a imperiosa força da paixão - são estas, estas as que retratam a verdade do coração.


Lembro de algumas. Aliás, se há algo que devo agradecer a... a quem? Deus, talvez; são as lembranças doces dos momentos em que amei ou despertei o amor em alguém. E aqui volto ao absurdo Seinfeld: que preço teria a lembrança daquele rosto amolecido de amor, o ar surpreso e tolo que os apaixonados carregam, dizendo com a voz embargada  "eu te amo" de madrugada, para uma secretária eletrônica, ao fazer a descoberta avassaladora? Que preço teria o olhar abandonado à visão querida, que descobre enfim, o melhor jeito de expor seu coração atormentado?  Não sei. Sei que jamais, mesmo que esteja casada com um alemão chamado Alzheimer, me esquecerei das declarações que encheram minha vida de emoção.

 

 Eu estava seguindo para a Croácia a trabalho. Croácia, recém saída da guerra, triste. Inverno e eu sozinha. Parei uma noite em Roma e me hospedei em um hotelzinho muito simpático perto da Piazza Navona. Saí para caminhar e quando voltei, os concièrges, antes carrancudos, saudaram-me com uma euforia infantil. Achei aquilo “tão” simpático, que estranhei. Então abri meu quarto. Na cama, flores espalhadas em um ambiente a meia luz emolduravam um fax de uns dois metros comprimento com um texto delicioso, inteligente e refinado. O autor que iniciava ali um eterno caso de amor comigo, teve o trabalho de convencer do Brasil pelo telefone, em seu italiano colegial, os conciérges romanos historicamente mal humorados, a tungar as flores dos vasos espalhados pelo hotel (ainda não existia Flores Online internacional) e a compor o cenário. Tudo isto, sem dar gorjeta, só usando o plá de um apaixonado. “O amor é lindo”, eles me diziam risonhos, felizes em ter o que contar à noite em casa à família. Quanto ao amor, quem resiste a um cara destes?


Às vezes, a declaração chega atrasada, mas vale para a aposentadoria na Dinamarca, pelo menos. Uma grande paixão de muitos anos atrás atravessou o continente longitudinalmente para encontrar-me por uma única noite. Eu viajava a trabalho. Movido por aquela dor física que a ausência provoca em apaixonados, ele chegou adoentado. Seu mal era um misto de culpa por algo que ele deixara de fazer por nós um pouco antes da viagem, arrependimento e um chute letal que recebera na canela num jogo de futebol. Trazia um curativo na perna do tamanho de uma flâmula de futebol. Eu estava magoada e o vaso se rachara ali para nós dois.Talvez não tenha conseguido manifestar-me. Mas considerei o ato heróico e de uma sinceridade que nunca mais experimentaríamos neste relacionamento.


E houve uma música. Guardo na memória seus acordes simples. Ou melhor, guardo a estrofe. Quando ele disse que tinha composto uma canção para mim, fiquei radiante. Na época, ao ouvir a balada rock achei graça e entendi como uma manifestação dos sentimentos controversos de nosso caso. No violão, ele cantou com sua voz pequena : “Te detesto\ acho que nunca te disse isto antes”. Na verdade, sim, ele tinha dito algumas vezes já. De modo que...bom, Te detesto! o que esperar de um caso de amor cujo tema musical leva este título? Nada. Hoje vejo que ele agiu sob o mais legítimo desamparo amoroso, diante da constatação de nossa inviabilidade. Era o prenúncio do fim. Mesmo assim, foi feita para mim. E lembrarei de sua sonoridade triste em meus dias de aposentadoria na Dinamarca.





Escrito por Mariella Lazaretti às 20h16
[] [envie esta mensagem] []



 

cabeleireira, 
 corte,  mulher, 
 cabelo,  cabelo, 
 salão. fotosearch 
- busca de ilustrações 
clipeart e desenhos

 

 A tesoura mortal da Shimiko

 

Assisti a um filme com Nicolas Cage – O Vidente, que conta a história de um cara que consegue prever o futuro com dois minutos de antecedência. Futuro imediatíssimo: ele vê a cena antes e a transforma. Muda o futuro a seu favor.

Impede um assassinato, ganha na roleta, assiste à reação de uma mulher a uma cantada sua.

Fiquei pensando nas vantagens de se ter dois minutos de gap contra o acaso. Dois minutos parecem pouco, mas podem ser o necessário para mudar um destino.

Se eu tivesse visto dois minutos antes, a barbaridade que a cabeleireira do Soho, a japonesa Shimiko ia fazer no meu cabelo em 1985, tudo teria sido diferente na minha vida. Tenho certeza. Quanto mais ela cortava, pior ficava. Aí, desesperada, ela tentou uma permanente, por conta da casa. O clima foi ficando tenso, os cabeleireiros cochichavam uns com os outros e o gerente ficou ao meu lado, em pé, me oeferecendo chá, café e chocolate. Eu chorava. 

Curto e encaracolado, a obra de arte da Shimiko - que acabou em sua demissão mediante o desastre consumado - destacava meu nariz no meio dos vales de minhas bochechas, como um Cyrano de Bergerac de peruca renascentista. Dois minutos com o talento de Nicolas Cage e eu teria escolhido o Tomai para aparar minhas madeixas longas e loiras, em vez da novata Shimiko. 

E não estaria aqui hoje, escrevendo este blog.

Também não teria derramado lágrimas manhãs e noites seguidas, comprado um arsenal de pasta de cabelo e presilhas, e suportado uma auto-estima baixa como tampa de bueiro. Eu teria ido à festa para a qual a Malu me convidou. Mas não fui: o visual do cabelo me acovardou.

Na festa estava o filho de um embaixador brasileiro que vivia em Paris e passava férias aqui. Malu e ele dançaram, se entenderam e namoraram. Fizeram uma viagem bárbara por toda a Europa. Malu freqüentou festas com autoridades, governantes e artistas de cinema. Esquiou nos Alpes, velejou no Mediterrâneo e esteve em banquetes em Marrocos e na China. Não se casou com o filho do embaixador francês que assumiu ser gay um ano depois, com o apoio da Malu, muito moderna e antenada com as tendências londrinas. Ficou tão querida na família que passou a freqüentar o mundo da diplomacia, casando-se três anos depois com um adido cultural de carreira promissora, lindo de morrer, que vivia em Berlim.

 Naquele dia eu fiquei em casa assistindo Pecado Capital e jogando buraco com uma tia que veio do interior. Assim que ela me viu na porta, se dobrou numa gargalhada desalmada. Era o meu cabelo. Fiquei com cara de italiana pobre e querubim sem asas, segundo ela.  Se eu estivesse com meus cabelos compridos e loiros como sempre tive, eu teria ido à festa, me sentindo segura e feliz. Talvez o filho do embaixador tivesse tirado a mim pra dançar. Eu dançava muito melhor que a Malu. Talvez eu tivesse até tentado o Instituto Rio Branco e virado eu mesma uma diplomata. Talvez eu tivesse me casado com um italiano. Ou não. Quem sabe.

Tudo porque não pude impedir que a tesoura da Shimiko me esfolasse o destino.



Escrito por Mariella Lazaretti às 12h54
[] [envie esta mensagem] []



Os reis magos e a Bupopriona

 

Minha amiga Bia passa lá em casa domingo à tarde para fazermos juntas uma simpatia para os Três Reis Magos. Segundo ela, é tiro e queda pra ganhar dinheiro em 2008. Não que ganhar mais dinheiro seja necessário, mas é sempre bom se prevenir.

Duvido inicialmente da eficácia da mandinga. Olho para a Bia, uma feroz trabalhadora, mas que não tem dinheiro assim, sobrando. Parece que ela adivinha meus pensamentos e diz: "Olha eu, não sou rica, mas nunca fico sem dinheiro. Sempre pinta algum. Faço a simpatia há anos".

Então concordo. Tudo depende de seu grau de necessidade.

Ela chega carregando uma romã. Tira da bolsa um papel amassado onde há uma oração escrita. Dois dos meus filhos vêm lhe dar um beijo. Bia é minha amiga há quase vinte anos. Grande amiga – meio maluquete, mas por isso mesmo muito querida. Sentamo-nos na ponta da grande mesa da sala. Os quatro. Recebemos as instruções da Bia. Temos de escrever a oração em um papel, lê-la em voz alta, chupar três grãos de romã, depositando as sementes sobre o papel. Em seguida, devemos enrolar a oração escrita de punho próprio, com as três sementes babadas de romã em uma nota de dinheiro. O rolinho de dinheiro, a reza e a romã devem permanecer na carteira o ano todo, para que na mesma data de 2009 doemos a nota a algum menino pobre. Tem de ser do sexo masculino, ela diz, e eu suponho que talvez faça mais efeito se o menino tiver barba como Jesus.

Me vejo fazendo isto com meus dois filhos na mesa da sala e a cena me enternece. Damos muita risada do nosso jogral ridículo, lendo a oração em voz alta como se estivéssemos levando um plá com os três reis magos. Acho-os lindos, ali, tão mocinhos e alegres levando a intenção da mãe e da tia a sério. Penso que, no fim das contas, devo ter sido uma boa mãe. Eles são tão legais...

Bom, talvez nem seja mérito meu, mas da escola, da genética, dos avós.

O fêcho da oração que inicialmente se mostra meiga, acaba como uma ameaça categórica a cada um dos três reis magos: "São Melchior passe o dinheiro pra cá. São Balthazar passe o dinheiro pra cá. São Gaspar passe o dinheiro pra cá". Pô, Bia, diz um dos meninos, não é uma oração, é um assalto. Damos mais risadas. Faço um café.

Bia me conta como foi o natal dela...a filha que veio visitá-la e cobrá-la do passado. Eu conto sobre o meu. Que foi tão bom, com amigos queridos, minha enorme família. Mas depois que ela se vai, me dou conta de que estou na fase mais difícil do ano. A fase do sofrimento por antecipação.

Esta é a época do ano em que faço planos concretos para ir viver na Bahia. É o que desejo. Me vejo lá em uma casa simples, com um tererê no cabelo pronta para de viver da pesca de subsistência.

É que de pensar nas partes chatas do trabalho no próximo ano, me dá uma gastura... Se fosse só família e amigos, mas há os prazos, as negocições, as pessoas, o dinheiro, as contas. As pessoas. Algumas tão absolutistas. Queria eu ser a absolutista, mas nem isso posso ser.

Penso no evento enorme e grandioso de gastronomia que faço todo ano e que me consome, mas que se tornou tão importante que é impossível eliminá-lo. É bom na hora em que ele está acontecendo. A adrenalina dá pique. Mas antes, até chegar lá, é um martírio lento. É como estar na fila da montanha russa: primeiro você ensaia para cair fora, mas percebe que a multidão te empurra pra entrar no carrinho. Então você senta no carrinho, percorrendo lentamente a subida que subitamente te jogará no abismo. Você sabe o que te espera, sabe qual vai ser a dor, mas não há o que fazer a não ser ultrapassar o obstáculo sem anestesia.

Ai, Deus meu...

Vou até a cozinha e abro minha caixa de Cloridrato de Bupropiona. Tomo minha dose diária. Penso que está na hora de dar um tempo no remédio. É o que dizem: um ano com, um ano sem. Mas logo que engulo aquilo penso em coisas boas (não por causa do remédio propriamente, mas por uma cadeia de associações de idéias).

Então paro e digo a mim mesma, poxa, tem bastante coisa que eu não sei de antemão pra acontecer também. Coisas que podem ser boas.Me vejo rindo, jantando entre pessoas queridas, tomando caipirinha na praia, celebrando aniversários de meus filhos, viajando, fechando novos negócios, fazendo projetos legais...Me sinto feliz, segura, amada, necessária. Que maravilha...

Fecho a caixinha. Antes verifico quantas pílulas ainda têm lá dentro. Decisão de ano novo: não largo este remédio nem a pau.



Escrito por Mariella Lazaretti às 20h17
[] [envie esta mensagem] []



A felicidade até existe




- Alô.


- Alô. Tudo bem?


- Quem é?


- Eu. Eu...não reconhece mais?


- Beto?


- Sabia que você não tinha esquecido. Eu mesmo. Como vai?


- Puxa, quanto tempo! ... Vou indo. Não, não: vou bem!


- Soube que você se separou.


- É, já faz um tempo. E você?


- Continuo firme com a Luciana. Quer dizer...


- Quantos anos faz, 20 anos?


- Dezoito anos. E você?


- Bom, fiquei com o Tato nove anos. Três filhos. Me separei faz quase um ano. Não tive tanta persistência quanto você. Preferi acabar com nosso sofrimento e dar a chance do Tato ser feliz.


- E a você mesma também...Seu marido era muito parado. Saía pouco, só ficava em casa lendo e tomando uísque.


-É. A vida é curta. E como dizia Roberto Carlos, a felicidade até existe.


- Olha, já faz tanto tempo, mas queria te dizer uma coisa.


- Faz mesmo.... O quê, uns 20 anos, pelo menos.


- É. E neste tempo todo não houve um dia. Um único e mísero dia em que não tenha pensado em você.


- (respiração dela)


- Queria que você soubesse.


- (mudez atônita)


- (respiração dele)


- E isto é bom, Beto? Ter pensado em mim fez você se sentir aliviado com sua escolha? Quer dizer. Quando terminamos você foi tão claro em me dizer que jamais se casaria. Que casamento é uma instituição falida, que seria nossa morte, que isso e aquilo...


- E me casei, um ano depois... Eu sei. Você deve ter se perguntado onde errou.


- Você continua engraçado. EU ERREI? E você que pensou em mim todos os dias...Sempre quis saber como foi que “isto” aconteceu com você. Quando foi que você desistiu de ser um lobo solitário e se entregar ao tédio do casamento por... hummm, dezoito anos?


- Não tenho esta ilusão. Nunca tive. Felicidade é uma quimera. Com você eu ia ficar desesperado, achando que eu não ia conseguir.


- Olha gosto tanto desta palavra – Quimera - que dei como nome a um jumento que tenho na fazenda. O Quimera é uma graça, mas tem preguiça de fazer qualquer coisa, fica pastando sempre no mesmo lugar.


- Ponto pra você. Continua afiada.


- Não... não quis ofender, longe de mim...E você, vivendo la vida loca? Tem lido coisas boas, visto filmes legais?


- Saio pouco.


- Nem sai pra jantar, dançar? Viaja, então?


- Não, não... Fico em casa lendo. Continuo no mesmo emprego. E você?


- Bom, minha vida deu uma mudada... Tenho aulas de dança de salão, fiquei na Itália um período, agora, recentemente, voltei de um período na Bahia. Aluguei uma casa lá. E hoje, acabei de ver Amor nos Tempos do Cólera. Filmaço.


- O livro é bárbaro, mas aquilo é impossível. Amar uma pessoa a vida toda.


- Sabe que eu discordo. É o mais lindo final de romance de todos os tempos. Que o barco não pare nunca mais, nunca mais...


- Você? Você acabou de se separar. Como pode dizer que acredita em final feliz?


- Ué, por isso mesmo. Acredito e vou sempre acreditar que ninguém nasceu pra viver sem ser decentemente amado. Acabar o romance é acidente. A luta é o que interessa.


- Como você é boba. Continua boba. Você conhece alguém feliz no casamento?


- Conheço. Eu. Fui feliz por um bom tempo. E acho que a busca vale a pena.


- Ah, tá bom... quem é o cara?


- Tem um cara, sim. E estou gostando do que ele quer.


- Sexo. Ele quer sexo? Sexo sempre foi bom com você.


- Você não aprendeu nada. Não, ele quer entrar na minha vida. Quer se jogar de cabeça. Quer que tudo dê certo.


- Ah, conta outra. O cara deve ser um bobo alegre.


- Alegre, sim, mas nada bobo. Chega de gente triste na minha vida, angustiada...


- É, não parece bobo, não. Está dormindo com você.


- Machistinha casca grossa... E invejoso, você! Não aprendeu muito desde os anos 80. Um relacionamento não é só sexo ou só ligação intelectual. Tem de ter um pouco de tudo. Tem a alegria da companhia. Querer estar junto, sabe? De dividir impressões...


- Isto eu sei fazer bem. Dividir tédio.


-Sabe o que sempre me irrita? Homem que reclama de casamento, mas continua casado. Como se não tivesse vontade própria. Você acha que pode fazer uma mulher feliz, reclamando da vida o tempo todo? Por que ela seria legal com quem faz isto?


-Não é fácil se separar. Tem os filhos...


-Eu também tenho. E para mim sempre foi mais difícil acordar e dormir achando que eu estava perdendo uma festa em algum lugar. A tristeza mata. Dá câncer.



Escrito por Mariella Lazaretti às 23h36
[] [envie esta mensagem] []



A felicidade até existe 2

 

- A vida com outra pessoa é desgastante. As pessoas são sozinhas. Estar acompanhado é anti natural.

- Fale por você. A minha está muito boa. Vejo uma luz no fim do túnel.

- Pode ser um Carro Cegonha vindo em sua direção.

- (ela ri) Ai, este otimismo... Acabei de assistir Amor nos Tempos do Cólera. E o personagem principal, lembra dele? Passa a vida praticando o coito bravamente com o mulherio de toda Colômbia, mas sempre desejando ter o amor da Fermina. E há uma cena em que ele, sozinho e cansado da vida dissipada, diz: “O tédio é ferrugem”. Toma conta de tudo. Ele neste momento tinha tido relações com 622 mulheres, e sentia tédio.

- Você gosta de tédio?

- Não gosto de resfriado e quando ele aparece, tomo chá de limão, tomo aspirina até me sentir melhor. A vida é assim, se não, não teria graça. Quando o problema aparece, a gente resolve. É assim.

- O que o cara faz da vida?

- É fazendeiro.

- Putz, deve ser um imbecil. Não deve ter lido dois livros na vida.

- Você leu tantos e ainda não entendeu tanta coisa.

- Queria ter sido menos estúpido aos 25 anos.

- Seja menos agora.

- Queria voltar no tempo.

-Olha. São as escolhas que nos levam aonde estamos. Eu não poderia ser feliz hoje, se não tivesse sofrido no casamento. E nem conseguiria ter vivido momentos felizes no casamento se não tivesse vivido com você.

-Comigo foi tudo ruim? O que você viveu antes de mim para chegar a mim.

-Tive apendicite.

(os dois riem)

- Sabe do que mais sinto falta?
-Sei. Do entusiasmo.

- É. Das risadas. Estou em crise.

- E quando você não esteve?

- Não, é sério. Sabe o personagem do Nick Hornby,de Alta fidelidade, que se separa e liga para todas as ex para saber o que fez de errado?

- Eu sou qual da lista?

- A primeira.

- Não tenho queixas, não. Foi tudo muito bom enquanto durou, mas acho que essencialmente pensamos no amor de maneira diferente.

- Como eu sou?

- Você é alguém que só acredita no amor que se foi. Você começa um relacionamento querendo acabar. E você consegue, claro. Mais cedo ou mais tarde, a Luciana também vai entender seu recado e vai se mandar.

- Eu amei você loucamente.

- Você disfarçou bem, então...

- Você só faz piada da minha dor.

- Olha, você passou o tempo todo em que estivemos juntos, dizendo que não íamos dar certo. Nem quando estava dando certo, você acreditava que ia dar certo. Era especialista, aliás, em dizer a coisa errada na hora certa.

- Você nunca me disse palavras doce

- Ah, não. Fiquei traumatizada. Quando eu disse coisas doces, a reação foi me deixar à deriva pra casar com a sua vizinha de infância. Vamos nos ver qualquer dia pra falar de coisas alegres.

- Sou um cara triste.

- Então compra uma fantasia de pierrô e me deixa em cima do carro alegórico.

- Como você consegue ter uma lista de piadas na hora da dor?

- Quando você vai dizer que foi feliz um dia? Quando?

- Pretensiosa...

- Se inspire no Gabriel Garcia Marques.

- Não tenho um barco pra subir e descer o rio...

- Tenha fé, homem.

- Boa sorte em seu novo amor.

- Que você consiga salvar seu casamento.

- Beijo. Pense nas coisas boas. Só nas boas, tá?

- Tá. Beijo.

 

Ele voltou para a internet. Ela pegou a bolsa e foi comprar um vinho e um sapato novo.

 

 

 



Escrito por Mariella Lazaretti às 23h35
[] [envie esta mensagem] []



Joguei (quase) tanta coisa fora...

 

Todo fim de ano limpo meus armários lá em casa. Deveria limpar todo mês, mas este momento requer de mim concentração total. As decisões são profundas, é preciso estar de folga para entrar no transe.

Faço isto de maneira radical uma vez ao ano, tanto para saborear a sensação de um ano vindouro com tudo em ordem, quanto para enfileirar as novas perspectivas diante de meus olhos.

É um momento em que paro para separar o que é ou foi importante, do que não é e nunca será.

 

E é tão difícil fazer esta distinção...

 

Então, lá vou eu.  Pego um saco de lixo grande e sento-me diante das gavetas. O cartão de natal de 1997 de alguém que dizia que me amava, mas que no fim deixou más lembranças, deve ir para o lixo ou ficar? Parece simples, mas já me arrependi de ter jogado fora coisas das quais sentiria falta hoje mais velha e mais sábia. Mesmo que o sujeitinho não tenha um lugar glorioso em minha memória, na dúvida, coloco o cartão de volta na gaveta. 

 

A concha do mar enlaçada com uma fita do Bonfim que nem sei como foi parar ali, mas que mantenho por sentir sua vocação de amuleto, deve enfim ter seus poderes confrontados com realidade e (conseqüentemente) ir para o lixo? Bom, penso que, poxa, mesmo sem função definida, eu gosto do diabo da concha...Deixa ela ali, vai.

 

É um momento de abandonos difíceis, mas necessários. Ao menos é o que digo a mim mesma toda vez que ameaço, diante dos impasses, adiar as escavações.

 

Abro uma pasta da faculdade e revejo alguns escritos cheios de frases onomatopaicas e imagens lisérgicas. Dou risada de mim mesma e de alguns textos de um amigo que o tempo transformou em fiscal do imposto de renda. Achávamos que seríamos escritores. E dos famosos. Não vão para o lixo. Nunca irão.

 

Ao lado vejo um envelope com os holerites de uma empresa onde trabalhei 16 anos.  Mando para dentro do saco, incontinenti. Depois penso: será que devo mesmo? Posso precisar de uma referência de salários no ano de 1989. Hesito.Tem o Google pra isso... Me desfaço dos anos de 1990 para trás, porque pode ser que no futuro ninguém saiba como era a cara de um holerite e eu vou ter alguns para mostrar.

 

 Abro outra porta, sinto o cheiro da casa de minha mãe. Flagro-me minutos depois, argumentando comigo mesma, sobre a suma importância que aquela lata de biscoitos Maizena terá na minha vida nos próximos 50 anos. A lata tem uma menininha linda loira segurando um cachorrinho. Já tentei substituí-la várias vezes por versões chinesas de um porta-costura, mas sempre sucumbo ao seu encanto nostálgico. Gosto de suas cores já desbotadas e do barulho de vácuo ao abri-la. Posso sentir o cheiro dos biscoitos deliciosos que teriam vindo dentro, e que pequenininha, eu sentia tristeza por jamais tê-los provado. Durante anos, eu olhava aquela lata linda e sonhava abri-la e encontrá-la cheia de bolachas antes de minhas irmãs mais velhas. Ou de como elas tinham sido felizes no dia em que meu pai chegou do trabalho com a lata que ganhara de presente debaixo do braço. Teriam avançado sobre os biscoitos enquanto eu ainda me divertia com a mamadeira. Este ano decido: a lata será meu Rosebud, o trenó da infância de Cidadão Kane, cuja imagem flanou em sua mente em seus últimos segundos de vida. Desta lata me lembrarei para sempre.

 

   Fotos, bilhetes, lembrancinhas. Coisas de que já nem me lembro bem porque guardei. Sempre penso que um dia, na minha velhice, o tíquete de um show do Caetano Veloso terá nova e grande valia. Vejo-o ali, desbotado, sem sentido...tenho de ser firme: - jogo-o fora. Mas logo me vejo vasculhando o lixo para resgatá-lo. Talvez o bilhete onde ainda se possa ler “etano Veloso Fileira F” seja a faísca que me levará a contar a história de amor ao meu neto. Ou será o suficiente para eu ter alguns minutos de felicidade em algum dia solitário e remoto.

 Com o tempo, a gente corre o risco de esquecer, sabe?...

 

Talvez eu me lembre, inclusive, que esqueci ter sido neste show o roubo de um toca-fitas do meu carro. Mas aí já vou rir, porque notarei que a infelicidade que isto me proporcionou na época, acabou. Fui muito feliz mesmo sem o toca-fitas, que nada representaria para o sucesso ou fracasso de minha vida.

 

É tão bom isto, não? Olhar aquele bilhete de amor que te pareceu tão cruel um dia, que te levou a pensar em matar ou morrer, e que agora é um pedaço de papel amassado sem seu poder letal. Na palma de sua mão, a letra redonda de bic tem o valor da constatação de que na vida nada é definitivo.

 

Isto é bom. E é ruim.

 

Sei lá, este negócio de limpar armários é uma experiência muito intensa...

 

Discos. CDs e vinis. Muitos deles contêm versões das mesmas músicas. Mas não me peça para despachar pra longe as canções dos Beatles. In My Life cantada por Paul McCartney é quase uma coleção. Tenho várias versões dela, em vozes e arranjos diferentes. O que não significa que eu possa abrir mão da versão executada pela orquestra de tubas da remota cidade de Kratowaska, porque... porque não posso!  E se um dia houver um concurso pra premiar quem tem mais versões de In my Life e eu tiver me livrado justamente deste espécime raro da interpretação mundial? Vou amaldiçoar-me até meu sussurro final. Rosebud! Rosebud! In My lif...

    Bom, ao final deste embate, convenço-me de que fiquei com os objetos fundamentais para minha segurança emocional. Faço uma última avaliação e, finalmente, mantenho firme, em sua caixinha de madeira marchetada, um punhado de terra de Jerusalém. Não tenho onde guardar, não tenho como usar, e nem fui eu que peguei com minhas mãos. Ganhei um dia, está lá. Pode ser que nem seja de Jerusalém. Mas enquanto eu acreditar que é, prefiro manter as boas relações com todos os deuses que habitam aquela cidade. Sobretudo para o ano que entra.

 A caixinha fica. Bem o lado da concha enlaçada por uma fita do Nosso Senhor do Bonfim.

 

Meus sinceros votos de que você se livre do superficial e mantenha em si mesmo o que tem real valor em 2008...



Escrito por Mariella Lazaretti às 18h37
[] [envie esta mensagem] []



 

 

  Maria Eugênia e o terapeuta

 

Sentou-se na mesa do bar de frente pra ele. O encontro, tantos anos depois, ainda os pegava perplexos com o que tinham feito daquele grande amor da juventude. Cheguei chegaste, vinhas fatigada...  Maria Eugênia lembrou-se do poema, mas não ousou dizê-lo. Eles não estavam fatigados. Se ela estava, era pela aula de capoeira que tinha acabado de fazer.

 

 Os últimos anos sem ele, na Inglaterra, tinham sido muito bons, tinha de admitir. Mudara de país e de vida. Ele também parecia bem mais alegre do que da última vez em que tinham se visto. Agora, enquanto engoliam o embaraço pelos canudinhos que o garçom lhes trouxe, ela disse: “O Guilherme sabe que você está aqui?”

 

Não seria a melhor pergunta para uma ocasião destas. Mas foi o que lhe ocorreu: perguntar se o terapeuta dele sabia daquele encontro. Do jeito que o romance de ambos tinha acabado, entre tapas, beijos e ameaças de suicídio, o Guilherme bem que podia estar na mesa ao lado, escondido atrás de um jornal, com um estojo de primeiros socorros para o caso de ter de interceder em uma recaída do casal. A verdade é que, se aquele relacionamento chegara ao fundo do poço como chegou, o terapeuta dele tinha uma cota de culpa.

 

 Era o que ela achava, pelo menos.

 

Houve momentos em que Maria Eugênia fantasiou sentar-se com o terapeuta dele em uma mesa de bar para contar-lhe toda a verdade. A verdade dela. Sabe aquela história que ele te contou, de que o traí com um arquiteto do escritório? Ele te contou também que foi ele mesmo que me jogou nos braços do cara?

De que ia adiantar? Nada. Mesmo assim, incomodava-lhe a idéia de que um terapeuta aconselhasse alguém com base apenas na versão contada pelo próprio interessado. O paciente poderia estar mentindo o tempo todo. De um paciente espera-se tudo, ora. E se havia algo que José sabia fazer era mentir. Mentia tão bem quanto jogava. Era um blefador notório que chegara a viver profissionalmente desta arte.

 

Maria Eugênia nunca fora apresentada ao Guilherme, o terapeuta. Mas era como se fossem chapas. Ele fazia parte da vida dela e vice-versa. Quando José tinha um problema, ela perguntava: “E o que o Guilherme acha disto?”. O Guilherme pontuava a vida dos dois como o terceiro do casal. Nunca tinham sido apresentados. Mas houve um evento estranho. Um dia de ligação intensa entre ela e o terapeuta...

 

No auge da confusão sentimental com José - quando as forças finais do casal se concentravam em produzir sexo furioso e brigas idem a caminho do banheiro –, Maria Eugênia sentiu ter visto Guilherme em um restaurante. Ninguém lhe disse que era ele – ela concluiu que era pelo brilho das pupilas dilatadas em sua direção.

Ela estava saindo do restaurante quando alguém a chamou. Uma amiga. Virou-se e cumprimentou-a de longe. Na volta, passou os olhos por uma mesa com duas pessoas. Foi rápido – dois segundos. Os olhos dela e do homem sentado na mesa se cruzaram, e ela o ouviu sussurrar para a mulher ao lado: “Ela é a Maria Eugênia?”

Sim, era ela mesma, a Maria Eugênia.

 

Dois segundos para decodificar o olhar do homem: íntimo, malicioso, interessado. Estava na cara: ele tinha ouvido falar muito a respeito dela. Queria absorvê-la. Era um sujeito de pele clara, trinta e tantos anos, rabo de cavalo castanho e o olhar quase fauno. Um rosto bonito, inteligente. Quem era? Sim, agora Maria Eugênia começava a fazer associações. A mulher ao lado dele havia sido terapeuta dela por um período curtíssimo. Uma obesa mais louca que todos seus pacientes juntos. Se conheciam. Por coincidência, dividiam o mesmo consultório. Maria Eugênia estava tecnicamente, portanto, diante de dois desconhecidos que julgavam conhecê-la mais que ela mesma (a