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As irmãs somos nós
Se não cultivo mais amizades femininas do que tenho, é porque posso – tenho cinco irmãs. Cinco irmãs. Todo mundo se impressiona com a quantidade e a repetição do gênero. "Cinco? Todas mulheres?" . É a pergunta que ouço - e nesta ordem.
Quando era criança, esta admiração das pessoas por nosso time feminino me enchia de orgulho, e me destacava na multidão. Éramos, na visão dos outros, parte de algo extraordinário, uma espécie de confraria cuja intimidade despertava o desejo de ser experimentado por quem estava de fora. Os que tinham poucos irmãos ou nenhum, ansiavam por fazer parte da experiência selvagem de nossa casa. Alguns namorados, creio ainda hoje, adorariam ter teminado conosco, mas permanecido na família, envolvidos em nossas piadas, desfrutado um pouco mais a alegria e confusão de nossas refeições, os campeonatos de buraco e os churrascos. Queriam continuar na confraria, mesmo após o terror de assistir nossas brigas aparentemente definitivas e mortais, que duravam duas horas de cara virada e só.
Penso nas pessoas que têm irmãos e que desfizeram o laço em algum momento entre o medo do escuro e compra da casa própria. Tenho pena deles. E me sinto feliz. Me sinto feliz por ter resgatado com minhas irmãs o espírito de confraria da nossa infância.
Em muitas fases nos afastamos dos irmãos. Já fiz isto. Me afastei e retornei, olhei à distância e de perto. E percebo hoje que longe ou próximas, com relações viscerais ou esporádicas, minhas irmãs estão e estarão sempre comigo, flutuando num universo paralelo que só pertence a nós.
Então imagino, em um breve vôo lisérgico, que os grandes amigos são como bolhas de espuma que flanam ao nosso redor, indo e vindo, circundando nossos momentos. Alguns mais, outros menos. Pego esta bolha e sopro, sopro, sopro até ser envolvida por ela - nela estou eu e minhas irmãs, com nossas vidas próprias, respirando a mesma atmosfera fraternal desde que nascemos. Jamais romperemos a bolha que nos conduz, por mais invisível e fina que ela se torne, porque é ela que nos carrega pela vida, seja lá para onde cada uma vá (bom, eu disse que era vôo lisérgico...) e que nos define como somos.
Nem mesmo a diferença de personalidades, de perspectivas de vida ou a distância física - talvez fatais em amizades - seriam capazes de confiscar a onipresença deste amor parcial e partidário. Sou, sim, do partido delas e elas são do meu. Inimigos delas, são meus. Amigos delas, são meus. E vice-versa. Uma máfia, como dizem alguns amigos - se estamos com a razão ou não em algum contencioso, isto só será dito sutilmente entre nós. Ou nada sutilmente, vá lá.
Creio que muitos irmãos quebram o elo e escolhem carregar a mala sozinhos. Acho em última instância, total falta de imaginação. Irmãos são versões de nós mesmos - melhoradas aqui, pioradas ali...Gosto de reconhecer nelas coisas que eu mesma faria, e sobretudo as que não faria de jeito nenhum - como defender uma tese de medicina ou aprender numerologia. Porque, veja bem, por pouco eu seria capaz de fazer estas coisas... somos forjadas da mesma matéria.
Olho minhas cinco irmãs e vejo que, a não ser por micro percentuais de poeiras genéticas que se perderam no frigir das moléculas, elas poderiam ser minha própria história contada de outro jeito. De cinco jeitos diferentes. Dá pra se sentir especial, não?
Escrito por Mariella Lazaretti às 14h15
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As declarações de amor na Dinamarca
Sou a favor das escancaradas declarações de amor. Acredito que todo mundo mereça uma declaração inesquecível (ou várias) na vida, tanto quanto uma aposentadoria decente. Pensando bem, as duas coisas podiam fazer parte dos planos de previdência - dinheiro mensal até a morte e garantia da terna lembrança de uma grande declaração de amor. Talvez na Dinamarca já haja isto. Ou na Suécia. Dentro do Plano Standard bastariam as boas lembranças. O Plano Luxo contemplaria no mínimo uma, ao menos uma declaração de amor desvairada. E se a declaração fosse comprovadamente correspondida - um grau acima em valoração – contaria com um adicional módico e justo - porque não há na vida nada que pague a confirmação de amor do ser amado.
Perdoem o momento Seinfeld aqui, mas tudo isto porque pensei nas coisas que fazemos ou recebemos quando estamos tomados de paixão. Como avaliar a importância que uma declaração sincera tem na vida das pessoas?
Pense naquelas ações cujo esforço, método e logística só chegam a seu alto grau de sofisticação, porque estão sob a imperiosa força da paixão - são estas, estas as que retratam a verdade do coração.
Lembro de algumas. Aliás, se há algo que devo agradecer a... a quem? Deus, talvez; são as lembranças doces dos momentos em que amei ou despertei o amor em alguém. E aqui volto ao absurdo Seinfeld: que preço teria a lembrança daquele rosto amolecido de amor, o ar surpreso e tolo que os apaixonados carregam, dizendo com a voz embargada "eu te amo" de madrugada, para uma secretária eletrônica, ao fazer a descoberta avassaladora? Que preço teria o olhar abandonado à visão querida, que descobre enfim, o melhor jeito de expor seu coração atormentado? Não sei. Sei que jamais, mesmo que esteja casada com um alemão chamado Alzheimer, me esquecerei das declarações que encheram minha vida de emoção.
Eu estava seguindo para a Croácia a trabalho. Croácia, recém saída da guerra, triste. Inverno e eu sozinha. Parei uma noite em Roma e me hospedei em um hotelzinho muito simpático perto da Piazza Navona. Saí para caminhar e quando voltei, os concièrges, antes carrancudos, saudaram-me com uma euforia infantil. Achei aquilo “tão” simpático, que estranhei. Então abri meu quarto. Na cama, flores espalhadas em um ambiente a meia luz emolduravam um fax de uns dois metros comprimento com um texto delicioso, inteligente e refinado. O autor que iniciava ali um eterno caso de amor comigo, teve o trabalho de convencer do Brasil pelo telefone, em seu italiano colegial, os conciérges romanos historicamente mal humorados, a tungar as flores dos vasos espalhados pelo hotel (ainda não existia Flores Online internacional) e a compor o cenário. Tudo isto, sem dar gorjeta, só usando o plá de um apaixonado. “O amor é lindo”, eles me diziam risonhos, felizes em ter o que contar à noite em casa à família. Quanto ao amor, quem resiste a um cara destes?
Às vezes, a declaração chega atrasada, mas vale para a aposentadoria na Dinamarca, pelo menos. Uma grande paixão de muitos anos atrás atravessou o continente longitudinalmente para encontrar-me por uma única noite. Eu viajava a trabalho. Movido por aquela dor física que a ausência provoca em apaixonados, ele chegou adoentado. Seu mal era um misto de culpa por algo que ele deixara de fazer por nós um pouco antes da viagem, arrependimento e um chute letal que recebera na canela num jogo de futebol. Trazia um curativo na perna do tamanho de uma flâmula de futebol. Eu estava magoada e o vaso se rachara ali para nós dois.Talvez não tenha conseguido manifestar-me. Mas considerei o ato heróico e de uma sinceridade que nunca mais experimentaríamos neste relacionamento.
E houve uma música. Guardo na memória seus acordes simples. Ou melhor, guardo a estrofe. Quando ele disse que tinha composto uma canção para mim, fiquei radiante. Na época, ao ouvir a balada rock achei graça e entendi como uma manifestação dos sentimentos controversos de nosso caso. No violão, ele cantou com sua voz pequena : “Te detesto\ acho que nunca te disse isto antes”. Na verdade, sim, ele tinha dito algumas vezes já. De modo que...bom, Te detesto! o que esperar de um caso de amor cujo tema musical leva este título? Nada. Hoje vejo que ele agiu sob o mais legítimo desamparo amoroso, diante da constatação de nossa inviabilidade. Era o prenúncio do fim. Mesmo assim, foi feita para mim. E lembrarei de sua sonoridade triste em meus dias de aposentadoria na Dinamarca.
Escrito por Mariella Lazaretti às 20h16
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