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O vizinho e o videokê De repente, meu vizinho deixou de falar conosco. Faz um tempo que me pergunto o que eu teria feito para deixar de merecer o simples bom dia que antes recebia. Logo que mudamos para esta casa fiz questão de convidá-lo, junto com os vizinhos do outro lado e da frente, para nossa festa de posse. Não conhecíamos nenhum deles, mas sustento a tese segundo a qual um vizinho só reclama do barulho e chama a polícia quando não é convidado para a festa. Sempre funciona e, de modo geral, perpetua um relacionamento gentil. De fato, este vizinho, em retribuição, nos chamou para tomar um drink. Jorge, o vizinho, nos recebeu sorridente amarrou o avental de ocasiões especiais, deu a volta no bar da piscina e anunciou que nos brindaria com sua especialidade: Sex on The Beach. A mistura de licor de pêssego, suco de laranja e vodca que Jorge fez com técnica científica para mim e Joca, nos soltou as mandíbulas. Eu pelo menos, tanto ri que engasgando de simpatia e com vontade de lisonjear o autor, pedi mais um. Era bom mesmo o danado do drink. Lá foi ele pra trás do balcão de novo, espremer laranja na hora, como mandava a liturgia de seu Sex on The Beach perfeito. Achei-o menos efusivo desta vez, mas julguei ser o semblante do fervor perfeccionista. Daí em diante talvez eu tenha falado um pouco alto ou sibilado em algumas frases. Nada grave. Talvez um zuzo bem, zuzo bem tenha escapado, vá lá (melhor que zuzo mal, zuzo mal...). E embora meu marido Joca tenha me conduzido pelo braço até a porta da rua, tenho certeza de que o tropeção no capacho que resultou na quebra do vaso de gerânios não foi notado. De resto, não fiz nada que justificasse ao Jorge e a Daniela nos obliterar de seus cumprimentos matinais. Joca tem outra tese. Afirma que a gota d’água foi a Tetê. Tetê Spíndola. Tudo começou com um presente que ganhei: um videokê, aquele brinquedo do século passado para cantores frustrados. Quem me conhece diz que me tornei meio obsessiva. Ok, eu tentava diversos tons, mudava o ritmo das músicas e cantava a mesma canção em variações infinitas. Cantei “Como nossos Pais”, consagrada por Elis Regina, umas 200 vezes. Na mesma tarde. Parei quando desconfiei que a piada de chamarem um exorcista não era piada. Tenho uma tese de que todas as pessoas no mundo se sentem artistas e sonham ser ouvidas em som estereofônico. Não me pergunte por que. Faça o teste do microfone. Leve um videokê ou um Wii ( para ser mais atual) a uma festa de família. As pessoas enlouquecem, se acotovelam e são capazes de vilanias para ter acesso ao instrumento que imporá suas vozes ao resto do mundo. Quem tem o microfone, tem a força. Tenho pesadelos ao recordar o olhar rútilo e a gana da minha doce tia avó ( hoje in memorian), que na ânsia de agarrar o microfone antes que alguém mais lépido o fizesse, largou a bengala, chutou o gato que cochilava no caminho, e atracou-se ao instrumento aos gritos de “Minha vez de cantar Ronda! Minha vez!”. Foi seu momento de glória antes da sua fulminante morte na semana seguinte. Quando ganhei o brinquedo fiquei embriagada deste delírio. Com os recursos equalizadores do videokê eu me sentia uma Yma Sumac*. Me comportava como se tivesse um camarim me aguardando com 55 toalhas brancas, 213 Águas Perrier e 7 caixas de Sonho de Valsa ( nunca entendi pra que tanta toalha branca, mas dos Sonhos de Valsa eu tinha decidido que não abriria mão); cantava Borbulhas de Amor em dupla com Joca, castigava um Tapas e Beijos com minha filha, e chegava a anunciar ao microfone meus shows imaginários pelo interior paulista : Alô Tupã, Americana, Sorocaba, Jacareí, Pindamonhangaba, estaremos aí de 12 de agosto a 25 de novembro... Foi difícil encontrar o tom certo, mas depois de tantas pesquisas descobri, enfim, que o D+ Fem ( na misteriosa nomenclatura do videokê ) era o ideal para mim. No entanto, eu ainda buscava minha obra-prima. A música que me garantiria aplausos e comentários quando ocasionalmente alguém, conhecedor de meu talento, me anunciasse na festa do Peão do Boiadeiro - onde jamais estive, mas nunca se sabe. Até que encontrei a pérola. Deparei com a música que casava com meu tom perfeitamente, a obra que me tornaria imortal em minha constelação familiar. “Escrito nas Estrelas”, que garantiu o primeiro lugar a Tetê Spindola no Festival dos Festivais, em 1985. Enquanto eu não me transmutei para a voz, inflexões e interpretação idênticas às de Tetê Spíndola não sosseguei. No dia em que cheguei aos píncaros agudos de Tetê, lembro-me que minha empregada surgiu com um papel nas mãos. Aguardou até meus últimos i-i-i-i, ahahahah uh-hu-huuhu, e disse: Estão aí para instalar o revestimento acústico e as janelas antiruídos. Olhei a nota fiscal e disse: que nada, é do vizinho aí. Do Jorge. E prossegui embevecida com minha interpretação absoluta e gloriosa, obtendo naquele mesmo dia a nota 100 do videokê. Quando desliguei o microfone às duas da manhã, pensei: nem Yma Sumac seria capaz de agudos tão perfeitos. Jorge e a Daniela podem nem saber quem é Yma Sumac, e por isso não me cumprimentam mais. Ignaros. Com janelas antiruídos nem vão perceber minha nova fase de sucessos quando meu Wii dos Beatles chegar. E aí, eu vou ter uma guitarra! Esta crônica foi publicada no jornal Brasil Econômico no dia 11 de outubro de 2009 * Cantora peruana dos anos50 famosa por sua capacidade vocal agudíssima que ia além de três oitavas.
Escrito por Mariella Lazaretti às 21h35
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Tenho de voltar e me exercitar nos textos. Acabo de escrever um livro sobre o Jantar do Século, que foi... um jantar do século! Calma, gente, não vou contar tudo hoje. Antes tenho de escrever minha primeira coluna para o novo jornal Brasil Econômico. Não se preocupem, que não bandeei pro lado dos economistas, só cuido da parte da happy hour, quando o papo rola e as bobagens saltam da boca sem piedade. É dessa parte que eu gosto! beijos a todos e até logo.
Escrito por Mariella Lazaretti às 21h26
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